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VIDA E MORTE DOS SÍMBOLOS HERÁLDICOS

HERÁLDICA

  • Contrariamente ao que muitos creem, a heráldica não é uma ciência arqueológica reservada aos restos das antigas nobrezas europeias.
    • Seus emblemas são utilizados cotidianamente em bandeiras, selos, moedas e monumentos públicos pela quase totalidade dos Estados europeus e por numerosos outros países do mundo.
  • As pretensas marcas de feudalidade, que os revolucionários ignorantes se empenhavam há dois séculos em martelar, abolir e fazer desaparecer, subsistem ainda nos frontões das prefeituras e no papel oficial de todas as comunas da França, ornando edifícios civis, militares e religiosos e decorando incontáveis obras de arte.
    • A questão que se impõe é quem sabe lê-las e quem ainda pode compreendê-las.
  • O uso dos emblemas é universal e atestado desde a mais alta Antiguidade.
    • Numerosas e eruditas controvérsias debateram se a origem da heráldica remonta a Adão, a Noé, ao antigo Egito, aos assírios, ao cerco de Troia, aos persas, a Alexandre, o Grande, aos romanos, aos germânicos, aos saxões, aos dinamarqueses ou a outros.
    • É atestado que o uso das armas propriamente ditas não começa muito antes do século XI, e que suas regras e sua língua, que definem o brasão propriamente dito, só se formaram ao final desse século, na França.
  • O padre Menestrier distingue claramente armoaria, que é a divisa portada no escudo ou na cota de armas, e brasão, que é seu deciframento ou descrição.
    • Menestrier acrescenta que o brasão começou na França como as armoriais começaram na Alemanha, sendo os franceses os primeiros que regulamentaram as armoriais e fizeram delas uma arte.
    • Parece que o uso de um grafismo estilizado particular impôs-se progressivamente na emblemática militar, criando os motivos heráldicos antes que fossem estabelecidos as regras e o linguajar de origem franca, senão francesa.
  • As Cruzadas desempenharam um grande papel na invenção do estilo heráldico, importando motivos decorativos difundidos no Oriente árabe, persa e bizantino.
    • Os termos azur e gules derivam do persa.
    • As justas e torneios contribuíram para codificar as marcas emblemáticas arvoradas pela cavalaria cristã e a delimitar seus usos, e muitos termos e meubles heráldicos provêm diretamente dessas paradas guerreiras.
  • Desde o século XII, os arautos são encarregados de fazer respeitar os usos e as honrarias das armoriais, e seu número crescente e seu posto privilegiado junto aos príncipes mostram a importância que reveste a Nobre Ciência até o fim da Idade Média.
    • À imagem da palavra brasão, que significava em antigo francês ao mesmo tempo escudo, glória e belo linguajar para celebrar, os arautos são comissários à guarda dos tesouros da honra e das palavras que merecem ser conhecidas.
  • Por ser o brasão antes de tudo uma língua figurada e uma alquimia das formas, convém dizer algumas palavras sobre as aparências dessas formas antes de tentar penetrar suas significações.
    • A evolução dessas formas permite reconstituir brevemente a história da heráldica e situar o ponto de vista em relação a ela.
    • É a estética do brasão que melhor introduz à compreensão de sua ética e de sua metafísica.
  • As características do grafismo heráldico evoluíram no tempo, desde o hieratismo bárbaro dos bestiários românicos até o transbordamento fantástico das gravuras da Renascença, passando pelo equilíbrio gracioso do desenho gótico.
    • No entanto, em sua pureza, o estilo heráldico permanece idêntico.
    • Os animais são fixados numa atitude hierática e frequentemente agressiva, sublinhada pela importância das garras, línguas e caudas.
    • Os leões rampantes são erguidos como chamas; as águias preenchem o campo do escudo com asas e caudas em arabescos; os galgos têm o mutismo e a imobilidade dos guardiões de segredos; os cavalos são gais, surpreendidos em sua travessia dos espaços; os touros furiosos traduzem o desencadeamento das energias terrestres.
  • As serpentes são o mais das vezes erguidas, varrendo com a cauda os abismos infernais enquanto a cabeça já toca o firmamento, sobrepondo seus anéis em espirais ascendentes.
    • As cabeças dos lobos, triangulares, fitam fixamente a luz da qual tiram seu nome.
    • Os cervos saltam como o desejo, como a alma sedenta em direção à fonte de vida.
    • Os golfinhos são surpreendidos em seus balés náuticos, girando como sóis marinhos.
  • Cada animal é desenhado na atitude mais característica do que representa, mesmo que pouco natural, pois são os arquétipos que transparecem atrás de cada figura, transformando-as em realidades não mais da natureza, mas do mundo imaginal.
    • O mesmo vale para os vegetais e todas as outras figuras: a rosa e o lírio heráldicos são apresentados sob um ângulo particular para fazer ressaltar os números que os animam; e nos castelos da alma figurados no brasão, as torres têm sempre três andares e três aberturas.
    • Trata-se sempre de simplificações significativas que descrevem, por trás das aparências naturais, as epuras essenciais: o brasão é uma escrita de hieróglifos.
  • A ornamentação transbordante é estranha à arte heráldica, que apresenta toda coisa segundo peso, medida e número, sem acréscimo de nenhuma espécie.
    • Na Renascença, particularmente nas gravuras como as que traçou Dürer, comprazeu-se no exagero do detalhe, na minúcia das composições e no jogo das luzes e sombras, como para exaltar numa última proclamação orgulhosa uma arte já incompreendida, que logo afundaria no estereótipo e na insignificância.
  • Após esse canto do cisne, o desenho heráldico na época clássica tende a aproximar-se cada vez mais da figuração natural, perdendo toda graça.
    • Os leões flamejantes tornam-se bestas cabeludas; as águias têm dificuldade em abraçar o espaço do escudo; os animais são retratados sob seus traços mais contingentes e anódinos.
    • É nessa época que se inventam as figuras ao natural, que se utilizam as cores de carnação e que se fazem crescer lírios de jardim nos espaços sagrados do escudo onde só devem figurar flores de lis em glória.
  • O mau gosto e a pretensão aliam-se nessas criações em que a alegoria laboriosa substitui o voo do símbolo, e a arte heroica é reduzida a arte decorativa, aliás pouco elegante por estar mal à vontade nas proporções estritas do escudo.
    • Basta percorrer as páginas do Armorial de Hozier de 1696 para descobrir quanto os juízes de armas da época eram ignorantes do essencial.
  • A heráldica napoleônica constitui a negação mesma da heráldica e transpõe pura e simplesmente insígnias militares ou civis ou emblemas naturais no brasão.
    • Comparar as armas imperiais de que Bonaparte se dotou, cuja águia escapada de um jardim zoológico se embaraça nos raios de teatro que Júpiter não reconheceria, com as armas do Sacro Império que ele fez precisamente desaparecer, é suficientemente eloquente.
    • Entre as invenções da época, a toca dos dignitários, simples chapéu burguês decorado de aigrettes, como se quisesse significar que o gralha se enfeitava com as penas do pavão defunto.
  • Os sabres tomam seu brasão por seu retrato físico, nele entrando todos arreados em uniforme de seu regimento, com sela de parada e pele de leopardo, brandindo sua arma com ar feroz.
    • Ao astrônomo Laplace julgou-se oportuno outorgar toda uma constelação, minuciosamente calibrada e obviamente difícil de descrever em termos heráldicos: de azul a dois planetas Júpiter e Saturno com seus satélites e anel em ordem natural, tudo de prata, postos em fasce em direção à parte inferior do escudo e encimados em chefe à dextra de um sol de ouro e à sinistra de uma flor de cinco ramos do mesmo; ao franco quarto dos condes senadores.
  • Ao cabo dessa evolução, o cuidado com a exatidão material na reprodução das formas físicas expulsa a verdade dessas formas, destruindo seu poder de evocação.
    • Esses signos, irrisórios e empobrecidos, nada mais transmitem e remetem apenas a si mesmos.
  • Codificada no concreto de uma imageria que fixa o relativo, o particular e os caracteres individuais na forma tornada convencional do escudo, a heráldica decaída dessa época não tem mais nenhum poder de abstração e nada ensina de essencial e universal.
    • Esses emblemas não exprimem mais do que o decoro de uma vaidade, ou seja, o inchaço exterior que camufla um vazio interior.
  • Se a ciência heroica, como a princesa do conto, está mergulhada numa letargia centenária, sufocada por espinhos e muralhas, importa despertá-la, mesmo que para isso seja necessário desbravar caminhos esquecidos e sacudir alguns guardas adormecidos.
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