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ASPECTO DO FENÔMENO TEOFÂNICO DA CONSCIÊNCIA
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Os caracteres que o homem partilha com o animal não são por definição abaixo do homem; tornam-se indignos apenas quando o homem renuncia à sua humanidade e negligencia humanizar o que partilha com o animal; humanizar é espiritualizar, sacralizar, abrir o natural ao sobrenatural de que provém ontologicamente.
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Para o homem, a experiência terrestre coincide com a lembrança de um Paraíso perdido mas sempre subjacente e atualizável.
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O que é comum ao animal e ao homem é a inteligência sensorial e instintiva, as faculdades sensíveis e os sentimentos elementares.
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O que é próprio somente ao homem é o Intelecto aberto ao Absoluto, a razão que o prolonga em direção à relatividade, e por consequência a capacidade de conhecimento integral, de sacralização e de ascensão.
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O homem partilha com o animal o prodígio da subjetividade, mas a do animal é apenas parcial enquanto a do homem é total; o sentido do Absoluto coincide com a totalidade da inteligência.
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A subjetividade comporta dois cumes ou diapasões, um intelectual e um vital: a união intelectiva e a união carnal; a sexualidade é animal nos animais e humana nos homens, e dizer que é humana significa que exige a espiritualização, a interiorização e a sacramentalização.
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Há uma complementaridade compensatória entre a intelecção e o orgasmo: assim como a união sexual exige sua sacramentalização para ser propriamente humana, o conhecimento intelectual exige uma concretização em profundidade que lhe adiciona uma dimensão extática, daí a associação entre a sabedoria e o vinho.
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O Coração-Intelecto é a sede não só do Conhecimento mas também do Amor, sendo Luz e Calor ao mesmo tempo; não há conhecimento pleno sem o elemento amor ou beleza, nem amor acabado sem o elemento conhecimento ou verdade.
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O de que o espírito humano necessita não é o elemento sexual, mas o elemento de infinitude do qual a sexualidade é a manifestação no plano vital e psíquico; como a sexualidade reflete uma realidade divina, ela se torna um suporte quase sacramental da extinção contemplativa.
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Há uma espiritualização da sexualidade como há, em sentido inverso, uma animalização da inteligência; no primeiro caso, o que pode ser ocasião de queda torna-se meio de elevação; no segundo, a inteligência se desumaniza e dá lugar ao materialismo e ao existencialismo.
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A contradição flagrante do materialismo é a negação do espírito mediante o espírito; a do existencialismo é o desmantelamento das funções normais da inteligência sob pretexto de defender os direitos da existência contra a abstração.
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Segundo Eckhart, quanto mais blasfema, mais louva a Deus; as ideologias materialistas e concretas, pelo excesso mesmo de sua inanidade, dão conta indiretamente da realidade do espírito e de sua primazia.
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Assim como nem a consciência nem a inteligência podem brotar da matéria, tampouco o amor, que é uma modalidade da consciência, pode dela derivar, pela simples razão de que o mais não pode vir do menos.
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A origem da criatura não é uma substância do gênero da matéria, mas um arquétipo perfeito e imaterial: perfeito e portanto sem necessidade de evolução transformante; imaterial e portanto tendo sua origem no Espírito e não na matéria.
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A trajetória vai, não a partir de uma substância inerte e inconsciente, mas a partir do Espírito, matriz de todas as possibilidades, ao resultado terrestre; resultado surgido do invisível num momento cíclico em que o mundo físico estava ainda muito menos separado do psíquico do que nos períodos mais tardios e endurecidos.
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A creatio ex nihilo significa, por um lado, que as criaturas não derivam de uma matéria preexistente, e por outro, que a encarnação das possibilidades não pode afetar em nada a imutável Plenitude do Princípio.
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No princípio estava o Espírito, portanto o Verbo; o Espírito, querendo e devendo se comunicar por ser o Soberano Bem, opera a manifestação de suas inumeráveis possibilidades; o Espírito é Luz e Calor ao mesmo tempo, inteligência e vida.
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Reduzir toda inteligência e todo amor a causas materiais é uma forma de não querer reconhecer que nossa existência material é um exílio, e de querer sentir-se à vontade num mundo que se apresenta como fim em si mesmo, dispensando o homem do esforço de superar as coisas e a si mesmo.
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Se os evolucionistas têm razão, o fenômeno humano não se explica e a vida humana não vale a pena de ser vivida; e é a essas conclusões que chegam em definitivo, daí seu axioma da absurdidade da existência, atribuindo ao objeto, que lhes é inacessível, a absurdidade do sujeito que escolheram deliberadamente.
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Credo ut intelligam: esta sentença exprime o ponto de vista de uma espiritualidade voluntarista, e dá conta do fato de que crer é uma forma de compreender em virtude de um pressentimento que é sobrenaturalmente natural ao homem, na medida em que consente em permanecer fiel à sua natureza e à sua vocação.
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