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CONSEQUÊNCIAS DECORRENTES DO MISTÉRIO DA SUBJETIVIDADE
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A primeira constatação que deveria se impor ao homem ao interrogar-se sobre a natureza do Universo é a primazia da inteligência, consciência ou subjetividade, e por conseguinte a incomensurabilidade entre essas e os objetos materiais; nada é mais absurdo do que fazer derivar a inteligência da matéria, portanto o mais do menos.
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A verdade do cogito cartesiano não é que apresenta o pensamento como prova do ser, mas simplesmente que enuncia a primazia do pensamento em relação ao mundo material; não foi nosso pensamento pessoal que esteve antes do mundo, mas a Consciência absoluta, da qual nosso pensamento é um reflexo distante.
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A evolução transformante é admitida como postulado útil e provisório, não demonstrado; se se parte da constatação do mistério da subjetividade, é fácil conceber que a origem do Universo é não a matéria inerte e inconsciente, mas uma Substância espiritual que, por coagulações e segmentações sucessivas, produz a matéria.
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A ideia do Grande Espírito e a primazia do invisível são naturais ao homem, e o que é natural à consciência humana, que se distingue da animal por sua objetividade e totalidade, prova ipso facto sua verdade essencial, pois a razão de ser da inteligência é a adequação ao real.
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A Intelecção e a Revelação são sobrenaturalmente naturais ao homem, mas seu rechaço é também uma possibilidade da natureza humana, pois o homem, sendo integralmente inteligente, é integralmente livre, e, único entre as criaturas terrestres, é livre de ir contra sua própria natureza.
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A liberdade do homem é total mas não pode ser absoluta, a qualidade de absoluto pertencendo somente ao Princípio supremo; mas essa liberdade total e relativamente absoluta permite ao homem, em Deus e por Ele, atingir a Liberdade pura.
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O homem se situa por definição entre uma Intelecção que o liga a Deus e um mundo que tem o poder de afastá-lo, possuindo assim a liberdade paradoxal de querer fazer-se Deus por sua vez.
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A possibilidade de ruptura entre a Intelecção e a simples razão é dada de antemão pela ambiguidade mesma da condição humana; o pontifex suspenso entre o Infinito e o finito não pode deixar de ser ambíguo, de modo que é inevitável que o escândalo chegue.
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A faculdade racional desapegada de seu contexto sobrenatural é forçosamente contra o homem e dá lugar necessariamente a um pensamento e uma forma de vida contrários ao homem; Corruptio optimi pessima.
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É humano o que é natural ao homem, e é natural ao homem, o mais essencialmente, o que se refere ao Absoluto e indica o ultrapassamento do humano terrestre; a subjetividade mesma indica com a maior clareza possível nossa referência ao Espírito e ao Absoluto.
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A inteligência separada de sua fonte supra-individual acompanha-se ipso facto do orgulho; inversamente, o orgulho impede a inteligência tornada racionalismo de remontar à sua fonte; nega o Espírito e o substitui pela matéria, da qual faz surgir a consciência.
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Despendem-se torrentes de inteligência para escamotear o essencial e provar brilhantemente o absurdo, a saber que o espírito emergiu de um monte de terra através de bilhões de anos cuja quantidade, em relação ao suposto resultado, é irrisória e nada prova.
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Há nesse processo uma perda do senso comum e uma perversão da imaginação que não têm mais nada de humano e se explicam apenas pelo parti pris cientista de interpretar tudo pelo baixo, edificando qualquer hipótese desde que exclua as causas reais, que são transcendentes e não materiais.
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O Espírito é a Substância e a matéria é o acidente; a matéria é apenas uma modalidade contingente e transitória do irradiar do Espírito, que projeta os mundos e os ciclos permanecendo transcendente e imutável.
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O irradiar do Espírito produz a polarização em sujeito e objeto: a matéria é o ponto de queda do polo objetivo, e a consciência sensorial é o fenômeno subjetivo correspondente.
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Para o Intelecto, a realidade objetiva é o Espírito sob todas as suas formas; é por ele que existimos e conhecemos, e se não fosse imanente às substâncias físicas, estas não poderiam existir um instante.
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No Espírito, a oposição sujeito-objeto se resolve na Unidade ao mesmo tempo exclusiva e inclusiva, transcendente e imanente; o alfa como o ômega, infinitamente além de nós, residem no fundo de nosso coração.
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O que podemos e devemos conhecer, nós o somos; e é por isso que podemos conhecê-lo infalivelmente, a condição de sermos libertados dos véus que nos separam de nossa verdadeira natureza.
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Em favor da primazia do Espírito existem provas extrínsecas não negligenciáveis resultantes da natureza mesma do homem: se tudo começou pela matéria e não há Espírito, como explicar que os homens tenham podido crer firmemente no contrário durante milênios, desdobrando um máximo de inteligência para afirmá-lo e um máximo de heroísmo para vivê-lo?
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As ideias materialistas se manifestaram e se propagaram sob nossos olhos desde o século das luzes, sem que seja possível constatar uma evolução no sentido de uma ascensão qualitativa intelectual e moral; bem ao contrário.
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Os que sustentam o argumento evolucionista explicam as ideias religiosas e metafísicas por fatores psicológicos inferiores como o medo do desconhecido ou a esperança infantil de felicidade perpétua; mas se a humanidade foi estúpida durante milênios, não se explica como pôde deixar de sê-lo, especialmente num lapso de tempo relativamente curto, e com que miopia filosófica e decadência moral tornou-se enfim lúcida e adulta.
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A essência do real não é o banal nem o trivial, mas o miraculoso: o milagre da consciência, da inteligência, do conhecimento. No princípio estava, não a matéria, mas o Espírito, que é o alfa e o ômega.
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