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MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO
CANTEINS, Jean. La passion de Dante Alighieri I. Paris: Dervy, 1997.
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Talice da Ricaldone, em seu Comentário de 1474, foi além ao descobrir o vocábulo theos (Deus) na ortografia latina do nome do Poeta: Dantes proprium nomen est quasi Dans Theos, id est Deum, sive cognitionem Dei, ou seja, o nome próprio Dantes é (a ler) Dans Theos, isto é, Qui donne Dieu ou ainda a connaissance de Dieu.
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A ideia do aproximação entre Dante e o adjetivo verbal dans-dantis foi provavelmente tomada de Boccace (Vita II), que a tinha anotado para dar matéria à tradição que faz Dante descender da família romana dos Frangi[a]pane.
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A filiação Dante-Frangipane não foi confirmada nem infirmada pelo Poeta e deve ser compreendida provavelmente não no sentido estreito de laços de sangue mas de forma ideal.
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A alusão ao episódio da multiplicação dos pães (Jn VI.2-14) é nítida no fim do livro primeiro do Convivio, onde Dante reivindica para si a prerrogativa crística de saciar a multidão mediante a leitura de seus escritos, prometendo um outro pão de cevada destinado a saciar igualmente milhares de pessoas não por consumo físico mas pela leitura.
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Os pães de cevada são seus escritos, prosa e poesia, profanos e sagrados.
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Dante pretende, com a garantia do Cristo na montanha, que uma vez a multidão saciada ainda sobrarão para ele cestos cheios.
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A evidente vontade de Dante de parafrasear o episódio crístico e explorar ao mesmo tempo o miraculoso efeito e o paradoxal resultado mostra uma intenção de uma natureza totalmente diferente da sapiencial: assim como o escrito poético é ao Poeta o que o pão de cevada é a Jesus, o pão dos Anjos é a Dante o que a Eucaristia é ao Cristo.
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Dante não pode alegar a transsubstanciação efetiva de seu corpo e de seu sangue, mas usa a analogia para sugerir um equivalente transposto ao seu estado.
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A significação eucarística da multiplicação dos pães é evidente e seu caráter prefigurativo é corroborado pela sequência de Jn VI.30-59, onde Jesus revela à multidão a significação do banquete.
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Os pães de cevada (pão grosseiro mesmo do ponto de vista terrestre) são pouca coisa comparados ao pão sobrenatural ao qual o Cristo se assimila e que opõe à alimentação natural de que a multidão se contentou; esse pão é sobrenatural porque é o próprio Cristo, e essa especificidade crística lança as bases do dogma de seu consumo sacramental.
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Em Jn VI.33 o pão de Deus é o que desce do Céu e dá vida ao mundo; em VI.35 Jesus diz: Eu sou o pão da vida; em VI.41 os Judeus murmuram contra Jesus porque ele disse: Eu sou o pão que desce do Céu.
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Todo o mistério da Eucaristia está lá em potência, pois quem comer desse pão viverá para sempre (v.58).
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Dante foi bem consciente da analogia e pôs em paralelo pães de cevada e pão dos Anjos: os pães de cevada são seus escritos, crescendo em quantidade e qualidade; o que é o pão dos Anjos é mais difícil de apreender, pois Dante pouco se explicou a respeito; para ver claro é preciso voltar ao episódio joanino, e o Evangelista indica que após o banquete foram recolhidas doze cestas dos pedaços restantes.
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Segundo Jean Scot (Comm. in Joh. VI.12-13), os pedaços em surplus não foram consumidos porque a multidão estava saciada e satisfeita com a letra somente, a criação visível e os símbolos visíveis.
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Quanto aos sentidos espirituais, são os pedaços que os homens carnais não podem tomar e que teriam sido deixados de lado se o Cristo não tivesse ordenado a seus discípulos que os recolhessem.
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Os pedaços abandonados pela multidão e recolhidos pelos discípulos remetem a uma ordem de conhecimento reservada à elite, mas isso não basta para identificá-los ao pão dos Anjos: eles provêm dos cinco pães de cevada de origem (alusão aos cinco livros do Pentateuco, segundo a exegese mais autorizada, o que equivale a reconhecer Moisés na criança que os procurou), e a cevada é mais para animais que para homens; os pedaços restantes, porém, podem fazer pressentir a virtualidade de um pão de essência superior — precisamente o pão dos Anjos.
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Uma hierarquia tripartite emerge: pães múltiplos consumidos pela maioria (corpo, sentido literal, os Judeus); pedaços restantes destinados a um pequeno número (espírito, sentido alegórico, moral e anagógico, os Cristãos e especialmente os Apóstolos); pão sobrenatural de origem celeste, supra-humano (os Anjos).
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O pão dos Anjos não se identifica simplesmente com os pedaços restantes.
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A expressão pão dos Anjos designa o pão transsubstanciado em corpus Christi oferecido ao fiel na comunhão, mas a esse sentido imediato se superpõe um sentido conforme a uma interpretação integral ou absoluta da Eucaristia: o pão dos Anjos é o próprio Cristo, e essa antonomásia se infere do intitulado de um dos dois cantos do Santo Sacramento: Ecce panis angelorum, cujo Ecce ostensivo deve ser entendido em eco das duas fórmulas célebres Ecce agnus Dei qui tollit peccatum mundi (Jn I.29) e Ecce homo de Pôncio Pilato (Jn XIX.5).
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São Agostinho (Sermon 194, PL 38.1016), são Boaventura (In Cena Domini, sermão 1) e a liturgia (bênção do Santo Sacramento) confirmaram esse sentido.
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A expressão connota a dupla natureza do Cristo: o pão participando do humano, do terrestre e do natural; o Anjo participando do divino, do celeste e do sobrenatural.
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A expressão pão dos Anjos é do ponto de vista teológico sem ambiguidade, mas não o é linguisticamente, e é isso que Dante pôde apreciar ao empregar a expressão para se postar em imitador do Cristo sem ir até a reivindicar abertamente os poderes sacramentais; ao caracterizar pelo apetite a tender o cou vers le pain des anges (Par. II.10-11) o pequeno número de seus semelhantes capazes de partir em sua aventurosa Peregrinação, Dante permanece voluntariamente alusivo e mantém a dúvida sobre o que está verdadeiramente em causa sob a fórmula.
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A exortação a imitar a Paixão do Cristo deve fazer do Peregrino um exemplo para todos os candidatos presentes e futuros.
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O Poeta entrou no Paraíso e lançou um apelo cuja força de atração não está perto de se extinguir.
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