User Tools

Site Tools


burckhardt:ciencia-sabedoria:psicologia-sabedoria

PSICOLOGIA MODERNA E SABEDORIA TRADICIONAL

  • A psicologia moderna, ao reconhecer que a psique é simultaneamente seu objeto e seu sujeito, encerra-se no dilema de que todo juízo psicológico participa da natureza subjetiva de seu objeto, não podendo escapar a um relativismo que corrói qualquer certeza objetiva e imutável.
    • C. G. Jung afirma que a psique é o objeto da psicologia e, desgraçadamente, também seu sujeito, o que implica que todo juízo psicológico participa da natureza subjetiva de seu objeto.
    • A psicologia, por mais que pretenda objetividade, não pode escapar a esse dilema, e qualquer afirmação categórica torna-se suspeita.
    • O relativismo desintegrador da psicologia estende-se a tudo o que toca (história, filosofia, arte, religião), convertendo-o em psicológico e subjetivo, isento de certeza objetiva.
  • Todo relativismo apriorístico se contradiz, pois a psicologia moderna, ao emitir juízos e crer em sua validade, invoca a certeza inata no homem que nega, certeza que provém do espírito (intellectus), que transcende a subjetividade da psique e ilumina seu mundo flutuante.
    • A psique é subjetiva, mas essa subjetividade é demonstrável porque existe em nós algo que escapa a essa limitação e a percebe “desde cima”: o espírito ou intelecto.
    • O intelecto, fonte de luz para a psique, não deve ser confundido com a razão (ratio), que é seu reflexo mental e, na ciência moderna, tem seu alcance limitado pelo método empírico.
    • Para a psicologia moderna, o racionalismo é insuficiente para descrever o mundo da alma, e tanto o caos das possibilidades psíquicas inferiores quanto a dimensão espiritual são considerados “irracionais”, levando a uma tendência a pôr em dúvida a própria razão.
  • A maior parte dos psicólogos modernos se acolhe a um pragmatismo clínico, acreditando salvaguardar a objetividade com um distanciamento interior, mas o eu do observador está sempre incluído na experiência, e a atitude artificialmente “objetiva” não supera o dilema do alma que tenta captar a alma.
  • A psique só pode ser conhecida a partir de algo que a transcenda, como o princípio moral da justiça, cuja superação do egocentrismo demonstra que a inteligência que guia a vontade não é mera realidade psíquica, mas transcende a psyche, apontando para a necessidade de uma psicologia baseada em verdades metafísicas dadas “desde cima”.
    • A psicologia moderna, ao assimilar o suprarracional ao irracional, não reconhece a metafísica e se predispõe a graves erros.
  • O que falta à psicologia moderna são critérios para inserir os aspectos da psique em seu contexto cósmico, critérios que a psicologia tradicional obtém da cosmologia (que situa a psique na hierarquia dos graus de existência) e da moral espiritual (que sonda a alma por sua resistência a um princípio imutável).
    • O verdadeiro conhecimento da psique nasce do autoconhecimento com os olhos do Si eterno, que permite ver objetivamente a própria forma psíquica subjetiva e conhecer as possibilidades do mundo psíquico.
  • A diferença entre a psicologia moderna e a tradicional evidencia-se na concepção da moral: para a modernidade, a moral é uma construção social que pode impedir o desenvolvimento normal da psique, concepção difundida pelo psicanálise freudiano, que usurpou a função da confissão sacramental.
    • Na confissão ritual, o sacerdote é o vicário impessoal da Verdade que julga e perdoa, permitindo ao pecador objetivizar suas tendências e retornar ao equilíbrio do centro divino.
    • No psicanálise freudiano, o homem se desnuda diante de seu próximo, assume os transfundos caóticos de sua alma e, sem superação, tende a mergulhar na mediocridade psíquica coletiva como falsa absolvição.
  • As doutrinas de salvação tradicionais não se assemelham à psicoterapia moderna porque a psique não se deixa curar por meios psíquicos; ela é inconstante e enganosa, só podendo ser curada por algo que esteja “fora” ou “por cima” dela: o corpo (pelo restabelecimento do equilíbrio humoral) ou o espírito (por formas e ações que testemunhem uma presença superior).
    • A psicologia moderna tenta explicar psicologicamente a eficácia da pregaria, do retiro em lugares sagrados e do exorcismo, ignorando seu sentido atemporal e sobre-humano e tratando-os como projeções ilusórias.
  • Para situar a psique (a forma “sutil” determinada pelo modo de ser subjetivo da criatura) em seu justo lugar, recorre-se ao esquema cosmológico de círculos concêntricos: o mundo corpóreo (centro, a terra) é envolvido pela esfera do mundo sutil ou psíquico, que por sua vez é envolvida pela esfera do Espírito puro.
    • Cada esfera, tomada independentemente, é homogênea, mas da perspectiva da esfera superior é apenas seu conteúdo.
    • Cada mundo é conhecido pelo mundo que o engloba: o mundo corpóreo é captado pelo psíquico, e o psíquico só se apresenta como “forma” pelo transfundo supraformal do Espírito.
  • A percepção sensível capta o mundo físico, mas o faz através de “imagens” de natureza psíquica, de modo que o mundo físico, rodeado pelo estado sutil, é um conteúdo seu, embora apareça como autônomo em seu próprio espelho.
    • O contexto lógico do mundo exterior supõe a unidade interior do psíquico, manifestada na correspondência das visões individuais do mundo visível e sua integração num todo contínuo.
    • O sujeito que conhece contém o mundo, pois sua percepção prescinde da cisão da consciência em sujeito e objeto, cisão que procede da polarização subjetiva da alma.
  • O que une no plano essencial diferencia no plano da matéria, e vice-versa: o espírito une os seres por cima da forma, enquanto plasma formas diferenciadas na “matéria” psíquica, que por sua vez une os indivíduos horizontalmente, mas os mantém encerrados em seu tecido finito.
  • A psique individual não é algo limitado em si mesma; ela está imersa no mar da existência sutil, e o que a separa dele é a dimensão subjetiva da consciência.
    • O estado sutil é a existência formal que se subtrai às leis da corporeidade, comparado à atmosfera que envolve a terra e penetra os corpos porosos.
  • Um fenômeno psíquico pode ser considerado sob múltiplos aspectos (resposta a uma impressão sensorial, manifestação de um desejo, consequência de uma ação, traço hereditário, expressão do gênio individual, reflexo de uma realidade supraindividual), e seria abusivo querer explicá-lo por um único aspecto.
    • A psicologia que invoca sistematicamente o que é inferior corre o risco de perder o discernimento e estreitar o horizonte mental.
  • O conhecimento das tendências cósmicas é decisivo para a psicologia, e esse conhecimento está presente nas tradições espirituais, como no símbolo da cruz (tendência ascendente para a origem divina, descendente para as trevas, e extensão horizontal no plano da existência) e nos três gunas hindus (sattwa, tendência ascendente; tamas, descendente; rajas, extensão pelo mundo).
    • Os gunas são coordenadas para referir os movimentos psíquicos a um contexto cósmico mais amplo, determinando seu rango na hierarquia dos valores interiores.
    • A participação dos gunas numa forma é qualitativa, não quantitativa, mas determinável, ao contrário da falta de critérios válidos da psicologia profana.
  • Há “acontecimentos” psíquicos que atravessam verticalmente todas as gradações do mundo sutil (roçando as possibilidades essenciais), outros que obedecem ao oscilar horizontal da psyche, e outros que procedem dos abismos psíquicos infra-humanos.
    • Os primeiros são expressos em formas claras e precisas, características da arte sacra; os últimos são formas ininteligíveis, nebulosas e equívocas, exemplificadas na arte contemporânea.
    • A constituição psico-física pode apresentar fissuras, e estados de alto valor espiritual podem não se expressar harmoniosamente (como nos “locos de Deus”), assim como estados patológicos podem refletir realidades supra-terrestres incidentalmente.
  • O mundo sutil é incomparavelmente mais amplo e variado que o corpóreo, consistindo em formas complexas, dominadas por contrastes e dinâmicas, ao contrário das formas essenciais do puro Espírito, que são ação pura.
    • A experiência do mundo sutil é de tipo subjetivo, pois a consciência se identifica com as formas sutis e segue suas tendências, não percebendo as demais formas senão como variantes de sua própria forma egótica.
    • Durante o sonho, a consciência subjetiva está reabsorvida no mundo sutil, mas dobrada sobre si mesma; as formas oníricas são projeções do sujeito, embora possam revelar realidades de ordem cósmica (sonhos premonitórios ou telepáticos).
    • O conteúdo de um sonho pode ser examinado por sua matéria (resíduos de experiências, memórias) e por sua economia (equilíbrio com a vida consciente), mas sua hermenêutica válida depende do conhecimento do nível de realidade a que as imagens se referem.
    • As imagens recordadas ao despertar são sombras das formas vividas no sonho, mas há sonhos de recordação clara e certeza objetiva, com alta qualidade formal, que procedem do Anjo, a Essência que une a alma aos estados supraformais do ser.
    • Existem também sonhos de impulso satânico, caracterizados por caricaturas de formas sagradas e sensação de obsessão e vertigem, frequentemente provocados pela atitude pretensiosa que mistura Deus com o “eu” pessoal.
  • C. G. Jung desenvolveu a teoria do “inconsciente coletivo” a partir da análise de sonhos cujas imagens não se explicam pela experiência individual, mas têm caráter universal e impessoal, distinguindo entre uma zona pessoal e uma zona coletiva do inconsciente.
    • Para Jung, o inconsciente coletivo consiste em disposições latentes não-passíveis de se tornarem conscientes, estruturas ancestrais com raízes na identidade das estruturas cerebrais e na evolução psíquica a partir de um tronco comum com o animal.
    • Jung via nos mitos e símbolos a expressão desse fundo psíquico ancestral, que aproxima o homem do animal, carecendo de fundamento intelectual ou espiritual, e sendo a base de toda imaginação e ação conscientes, especialmente em estados de consciência menos desenvolvidos.
  • Jung situa as raízes do “inconsciente coletivo” nas regiões inferiores de um fundo psíquico pré-humano, e seu uso do termo “arquétipo” (como “complexo inato” que “possui” o homem e o reduz a uma figura coletiva) difere radicalmente do sentido platônico, onde os arquétipos são determinações primordiais do Espírito puro, refletidas no plano psíquico como virtualidades de imagens e símbolos verdadeiros.
    • Os arquétipos platônicos são fontes do ser e do conhecimento, contidos uns nos outros, não se excluindo mutuamente.
    • O fenômeno que Jung chama de “possessão” por um arquétipo é, na realidade, a desintegração da forma sutil do homem, onde uma possibilidade interna prolifera às expensas do conjunto.
    • No indivíduo humano não degenerado, coexistem em potência diversas qualidades polarmente complementares (homem/mulher, pai/mãe, senhor/servo), cuja coexistência é perfeitamente inteligível e não tem relação com um fundo irracional.
  • A tese de um patrimônio psíquico ancestral acumulado por herança, análoga à explicação darwinista do instinto, é insustentável, pois o instinto não é um mecanismo automático, mas uma modalidade não reflexiva da inteligência determinada pela “forma” qualitativa da espécie, um filtro através do qual se manifesta a inteligência universal.
    • A inteligência humana, determinada pela forma sutil da espécie, possui a faculdade reflexiva, que permite ao homem singularizar-se, superar sua forma específica ou traí-la.
    • O animal permanece fiel à forma de sua espécie, e sua inteligência não reflexiva é um modo da inteligência universal.
  • Os sonhos que contêm motivos universais e simbólicos não provêm de um museu de protótipos herdados, mas da capacidade do alma de refletir, em certas condições, verdades intemporais do Espírito puro, sendo o linguagem formal desses sonhos determinado pela tradição do indivíduo.
    • Os exemplos de sonhos simbólicos citados por Jung frequentemente apresentam um falso simbolismo, oriundo de círculos pseudo-espirituais, pois o alma pode ser um espelho mágico que se burla de quem o contempla.
    • Os desenhos de pacientes psíquicos que Jung interpretava como mandalas autênticos são fruto de coação interior, e não instrumentos de concentração espiritual, como os mandalas sagrados.
  • O linguagem simbólico geral (luz = verdade, trevas = erro) presente nos sonhos não requer a hipótese de um inconsciente coletivo, pois o estado de vigília não abarca todo o campo da atividade mental, e o linguagem figurado do sonho não é necessariamente irracional.
  • O “inconsciente” dos psicólogos é um conceito relativo e provisório que designa tudo o que, na alma, fica à margem da consciência habitual do “eu” empírico, compreendendo tanto o caos inferior quanto os estados superiores (como o prajna hindú), não delimitando um campo determinado do alma.
  • A psicologia das profundidades de Jung, ao operar com o “inconsciente” como entidade definida e ao reduzir a simbologia tradicional a fantasmas ancestrais, apresenta o alma como uma fatalidade irracional, situada fora de toda ordem cósmica inteligível, com o vértice luminoso sendo a consciência do eu que “progride” afastando-se das trevas do inconsciente.
    • Jung postula um equilíbrio entre o consciente e o inconsciente, mediado por um centro de cristalização que denomina o “si” (Selbst), termo imitado das doutrinas hindus, mas que para ele é uma hipótese psicológica, um postulado transcendente e uma imagem que nos contém.
    • Em outros passos, Jung relativiza o “si”, considerando-o como resultado de um processo psicológico, uma compensação do conflito entre interior e exterior, e o fim da vida, a expressão da combinação de destino chamada indivíduo.
  • Jung apropria-se de conceitos tradicionais (arquétipo, si, iniciação) reduzindo-os a um plano psicológico e clínico, chegando a comparar o psicanálise com uma iniciação no sentido sagrado, num sincretismo que revela uma ignorância singular e uma recusa ao contato com verdadeiros representantes das tradições.
    • Jung evitou deliberadamente o contato com um sábio como Shri Ramana Maharshi, temendo, inconscientemente, o contato com uma realidade que desmentiria suas teorias.
    • Para Jung, a metafísica não passava de especulação no vazio, uma tentativa do psíquico de superar-se a si mesmo, ao que se pode objetar que essa própria objeção é também um produto da psyche.
  • Embora Jung tenha rompido certos moldes materialistas, os influxos que se infiltram pela brecha procedem de setores psíquicos tenebrosos e sinistros (justificados como “inconsciente coletivo”), e não do Espírito, que é o único verdadeiro e o único que pode salvar.
burckhardt/ciencia-sabedoria/psicologia-sabedoria.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki