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ORIGEM DAS ESPÉCIES
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O mínimo fenômeno participa de distintas continuidades ou dimensões cósmicas que não podem ser medidas pelos mesmos critérios, como exemplifica o gelo em relação ao vapor ou o cinábrio em relação ao enxofre e ao mercúrio, cujas qualidades não são mera soma dos componentes.
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A natureza possui uma característica intermitente que se manifesta no campo do vivente, onde um ser (pássaro, mariposa) é qualitativamente diferente daquele do qual provém (ovo, crisálida), ainda que haja um contexto genético.
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O simbolismo tradicional do tecido representa essa trama cósmica: os fios da urdidura (verticais) são as essências imutáveis (formas essenciais), e a trama (horizontal) é a continuidade substancial ou material do mundo.
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O hylemorfismo clássico distingue a “forma” (selo da unidade essencial) da “matéria” (substância plástica que recebe a marca e confere existência), doutrina que a ciência moderna não pode substituir.
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O conceito de “forma” tem um duplo significado: como circunscrição de uma coisa (aspecto material) e, no sentido dos filósofos gregos, como quintessência das qualidades de um ser, expressão de sua essência imutável (arquétipo).
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O mundo individual nasce da união de uma “forma” com uma “matéria” física ou psíquica.
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Em sua essência, a “forma” não é individual, mas um protótipo imutável, uma unidade cognoscitiva contida na unidade mais ampla do Espírito.
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A filosofia racionalista erra ao tentar reduzir ao absurdo a doutrina dos arquétipos aplicando-lhe a multiplicidade quantitativa, pois os arquétipos distinguem-se fundamentalmente sem separação no interior do Ser, como as cristalizações possíveis contidas em um cristal único.
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A espécie (species) é um arquétipo, uma unidade lógica ou ontológica indivisível, que não pode evoluir gradualmente para outra espécie, embora possa compreender subespécies que a refletem.
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A teoria da evolução gradual das espécies, inaugurada por Darwin, baseia-se na confusão entre espécie e subespécie, interpretando como princípio de nova espécie o que é apenas uma variante dentro de um tipo específico, sem que isso explique as inumeráveis lacunas entre os diferentes ordens de seres viventes.
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Não existem formas que indiquem conexão entre ordens como peixes, répteis, pássaros e mamíferos, havendo diferenças fundamentais em suas estruturas esqueléticas e orgânicas.
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O pássaro fóssil arqueoptérix, citado como degrau intermédio, é na realidade um autêntico pássaro, com particularidades próprias.
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A ausência de formas intermediárias é explicada pelos defensores do evolucionismo com teses contraditórias, como a de que essas formas imperfeitas e precárias teriam desaparecido, o que contraria a lei da seleção natural, que deveria produzir numerosos “projetos” de novas espécies.
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Se a evolução fosse gradual e contínua, todos os degraus, e não só os finais, deveriam ser resultados conclusos, não se compreendendo por que uns seriam mais esporádicos e destrutíveis que outros.
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Biólogos modernos sérios, como Jean Rostand, embora mantenham o transformismo como hipótese de trabalho por não conceberem outra origem para as espécies, reconhecem o caráter fabuloso e monstruoso da tese e a ausência de testemunho de uma evolução autêntica.
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A paleontologia demonstra que as formas animais apareceram em ordem ascendente, mas a saltos, com categorias inteiras surgindo de golpe, sem graus preliminares, como a aranha que já surge com sua presa e a capacidade de tecer.
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A ordem ascendente significa que, no plano material, o relativamente informe precede o complexo, pois a matéria reflete invertidamente a atividade dos arquétipos: a essência indivisa contém possibilidades ricas, enquanto no plano material as formas simples iniciais são pobres e as ricas são subdivididas (a semilla precede a árvore).
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O que vincula as diversas formas animais é um modelo comum, que se revela na simetria corporal, na colocação dos órgãos e no número de membros, expressando a correspondência entre macrocosmos e microcosmos, e não uma evolução progressiva.
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A natureza oferece, ironicamente, formas animais “imitantes” que pertencem a gêneros mais altos e imitam espécies e ordens inferiores, sem sair do marco da espécie própria, como as ballenas (mamíferos que se parecem com peixes) e o arqueoptérix.
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Essas formas não são membros intermediários de uma evolução, mas sim possibilidades extremas contidas em uma forma essencial, demonstrando o caráter imutável desta.
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A natureza manifesta sua potência geradora de fertilíssima fantasia mantendo-se fiel às formas essenciais (arquétipos nunca disseminados).
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No plano dos arquétipos, o entrelaçamento das formas sem promiscuidade é exemplificado pelo fato de que eles se refletem mutuamente sem se excluir, remetendo à homogeneidade metafísica da existência e à unidade do Ser.
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A tese de uma evolução “a saltos” baseada em mutações bruscas não procede, pois essas mutações mantêm-se no marco de deformações e degenerações (albinos, gigantes) que não podem conduzir a novas espécies, pois a herança supõe que a receptividade e a capacidade de engendrar se correspondem perfeitamente dentro da mesma espécie.
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Para que uma nova espécie surgisse, uma fêmea de uma espécie existente deveria engendrar o fruto de uma espécie nova, o que contradiz a lei da divisão dos sexos e a herança específica.
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O hermetista Ricardo o Inglês afirma que nada pode nascer de uma coisa que não esteja já contido nela.
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A tese evolucionista é uma tentativa de substituir o processo cosmogônico suprassensível (simbolizado pela criação bíblica) por um processo que se desenvolve na horizontal do mundo físico, fazendo derivar o superior do inferior e o que tem mais qualidade do que tem menos, o que é impossível.
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A origem das espécies exige um processo vertical, o “descendimento” de protótipos não físicos a partir de uma matéria que, nos tempos primordiais, tinha um grau de dureza cósmica distinto do atual, sendo mais plasmable.
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O estado físico em seu conjunto foi se tornando mais duro e consistente, recebendo menos facilmente a marca das realidades suprassensíveis, num processo cíclico desde sua origem supracorpórea até seu retorno apocalíptico ao estado sutil.
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Nos tempos primordiais, quando a matéria física era mais plasmável, uma nova forma específica podia manifestar-se fisicamente a partir do momento em que se “condensava” no estado psíquico, onde os diversos tipos de animais já estavam presentes como formas sutis, “descendendo” à existência física por uma coagulação súbita.
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A cosmologia indo-tibetana descreve o descendimento do homem com a imagem da luta entre deuses e demônios: os deuses criam o homem com um corpo fluido e transparente (sutil), os demônios o submetem a um processo de rigidez (opacidade, petrificação do esqueleto), e os deuses detêm esse processo criando as articulações e abrindo as vias dos sentidos.
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As primeiras gerações de uma nova espécie, por não estarem ainda suficientemente “solidificadas”, não deixaram vestígios nos estratos geológicos.
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A tese da origem infrahumana do homem não possui prova real, e os dados alegados (esqueletos de cronologia disparatada) podem ser interpretados de outras formas, como subespécies de símios antropoides ou como homens degenerados.
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A semelhança anatômica entre o homem e o mono antropoide explica-se porque, no plano animal, devem representar-se todas as formas possíveis, incluindo uma que seja anatomicamente afim à humana, sendo o mono uma “antecipação” física do homem em virtude da correspondência de possibilidades em diferentes planos de existência.
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Os restos fósseis atribuídos a homens primitivos podem pertencer a grupos sobreviventes de cataclismos de fins de era cósmica ou a homens degenerados, e não necessariamente a antepassados da humanidade atual.
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A teoria da evolução de Teilhard de Chardin é uma sublimação conceitual do materialismo que, apoiando-se na fé num progresso indefinido, no coletivismo e na veneração da máquina, pretende referir tudo a uma única linha evolutiva ininterrupta que conduziria a uma entidade cósmica global associada a Deus.
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Teilhard expressa relações científicas com esquemas graficamente simplificados, tratando abstrações como realidades concretas, e mescla categorias diversas de realidade (leis humanas, forças biológicas, tendências psíquicas e valores espirituais) numa profusão de conceitos pseudocientíficos.
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Exemplo típico é sua explicação da “explosão de consciência” pela “irrupção de um raio privilegiado de corpusculização”, demonstrando uma incapacidade de discriminação que deriva de sua premissa de que o espírito é uma fase avançada na transformação da matéria.
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Teilhard faz derivar a qualidade do aumento da quantidade (a pressão da vegetação geraria a vida animal; a pressão da massa humana geraria uma noosfera coletiva) e apresenta uma teologia em que Deus se desenvolve com a matéria.
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A teoria teilhardiana é contraditória, pois se o homem é apenas uma fase da evolução, não pode se situar objetivamente nela e enunciar verdades válidas sobre si mesmo e o mundo.
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O homem pode conhecer sua condição e rango precisamente porque não é uma simples fase de um desenvolvimento indefinido, mas uma possibilidade central, insubstituível e definitiva.
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A via que leva do humano ao divino não se situa no plano material e temporal, mas é perpendicular a ele, perpendicularidade expressa no Evangelho pela encarnação de Deus em forma humana, qualitativamente única e definitiva.
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A teoria de Teilhard corresponde a uma fissura na crosta do pensamento materialista que se abre, não para o céu e a unidade transcendente, mas para o campo das correntes psíquicas inferiores, num materialismo sublimado que se situa como um Grande Fraude ao substituir a busca pela verdade por uma fé equivocada e pseudomística.
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