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ORIGENS DA ALQUIMIA

  • A maioria dos historiadores responde que a alquimia surgiu da tentação de converter metais comuns em ouro e prata para enriquecer rapidamente, mas a realidade é quase totalmente oposta a essa explicação.
  • O ouro e a prata eram metais sagrados antes de se tornarem medida do valor das mercadorias, sendo a representação terrena do Sol e da Lua e de todas as qualidades espirituais atribuídas ao par celeste.
    • Até a Idade Média o valor de ambos os metais preciosos era estabelecido de acordo com os períodos de revolução dos respectivos astros, e a forma redonda das moedas é uma réplica da forma de seus modelos celestes.
    • As mais antigas moedas de ouro trazem gravados imagens ou signos alusivos ao Sol ou a seu ciclo anual.
    • Seria necessário todo um mundo de ideias informadas pela mecânica para privar esse parentesco de sua íntima vinculação e reduzi-lo a uma mera coincidência estética.
  • O verdadeiro simbolismo consiste em equiparar coisas que, embora distintas por razão de tempo, espaço e constituição material, têm uma mesma propriedade essencial, de modo que o ouro tem a mesma essência que o Sol e a prata a mesma essência que a Lua, sendo tanto os metais quanto os astros símbolos de duas realidades cósmicas ou divinas.
    • Não é correto dizer que o ouro representa o Sol: o ouro tem a mesma essência que o Sol.
    • A magia do ouro deriva de sua essência sagrada e de sua perfeição qualitativa, sendo seu valor material apenas secundário.
  • A natureza sagrada do ouro e da prata tornava sua obtenção função sacerdotal, e a manipulação dos minerais em geral era considerada operação sagrada nas civilizações arcaicas, que não distinguiam entre atividades espirituais e práticas.
    • A cunhagem de moedas de ouro e prata foi inicialmente prerrogativa de certas teocracias, e os usos metalúrgicos relacionados a esses metais, conservados em povos chamados primitivos, denotam ascendência sagrada.
    • Onde não havia tradição metalúrgica, como em certas tribos africanas, o fundidor ou ferreiro era considerado intruso na ordem natural, suspeito de praticar magia negra.
    • Para a humanidade arcaica, que não separava artificialmente o espírito da matéria, o advento da metalurgia não foi uma mera descoberta mas uma revelação, exigindo especial prudência por parte dos que a ela se dedicavam.
    • Assim como as manipulações do metalista com minerais e fogo encerram certa violência, também os influxos espirituais relacionados com esse ofício eram de índole perigosa e de duplo fio; a extração dos metais preciosos do mineral impuro por dissolventes e sob a ação do fogo exigia enfrentar as forças tenebrosas e caóticas da natureza, do mesmo modo que a obtenção do ouro ou da prata internos exige a derrota de todos os instintos obscuros da alma.
  • A autobiografia de um senegalês ilustra como a elaboração do ouro foi considerada arte sagrada em certas tribos africanas até tempos recentes, descrevendo o ritual de silêncio, os conjuros, a presença da serpente negra e a purificação prévia do ourives.
  • A conclusão de que existe um ouro interior, ou seja, de que o ouro possui tanto uma realidade externa quanto uma interna, era perfeitamente lógica para uma mentalidade que havia reconhecido espontaneamente no ouro e no Sol uma mesma substância, e aqui se encontra a raiz da alquimia.
    • A tradição alquímica, que se estendeu pelo Próximo Oriente e pelo Ocidente e talvez influenciou a alquimia hindu, reconhece como fundador Hermes Trismegisto, não outro senão o deus do antigo Egito chamado pelos gregos de Thot, que regia as artes e ciências sagradas de modo análogo a Ganesha no hinduísmo.
    • A palavra alquimia deriva do árabe al-kimiya, proveniente do egípcio keme, que designa a terra negra, denominação tanto do próprio Egito quanto da matéria-prima dos alquimistas, podendo também derivar do grego chyma, fundir ou derreter.
  • Os mais antigos apontamentos alquímicos conservados foram feitos em papiros egípcios, e o fato de não existirem documentos da primeira civilização egípcia não prova ausência de alquimia, pois a transmissão oral é característica essencial de todo arte sagrada.
    • O Corpus Hermeticum, que abarca todos os textos atribuídos a Hermes-Thot, chegou até nós em língua grega e estilo platônico, mas registra essencialmente o autêntico legado de uma civilização distinta, como demonstra sua fecundidade espiritual.
    • A Tábua Esmeralda, considerada revelação de Hermes Trismegisto e verdadeira lei da arte alquímica, chegou até nós apenas em versões árabe e latina, sem texto original, mas seu conteúdo atesta sua autenticidade.
  • A representação coordenada de operações manuais alquímicas tanto nos textos do tardio Egito quanto nos formulários medievais evidencia a procedência egípcia de certos elementos, incluindo a manipulação de metais, fabricação de pedras preciosas artificiais e vidro colorido.
    • Toda o artesanato do antigo Egito a base de metais e minerais era informada pelo anseio de extrair da matéria terrestre suas mais secretas e preciosas essências, motivo espiritual afim ao da alquimia.
    • Alexandria do tardio Egito foi provavelmente o cadinho em que a alquimia adquiriu a forma em que hoje a conhecemos, assimilando certos motivos de lendas gregas e asiáticas de modo análogo à formação de um cristal que assimila partículas afins segundo leis unificadoras.
  • A partir dessa época podem-se observar duas correntes na alquimia: uma de qualidade eminentemente artesanal, em que os símbolos de uma obra interna aparecem como algo subordinado à atividade profissional; outra que utiliza as operações metalúrgicas como alegoria, podendo-se perguntar se chegavam a ser praticadas de fato.
    • Trata-se de dois aspectos de uma mesma tradição, sendo o aspecto simbolista o que reflete mais fielmente o legado arcaico.
  • A aceitação da alquimia pelas religiões monoteístas — cristianismo, judaísmo e islamismo — explica-se pelo fato de que suas ideias cosmológicas, ligadas organicamente à antiga metalurgia, foram acolhidas simplesmente como conhecimento da natureza, do mesmo modo que o legado pitagórico contido na música e na arquitetura foi incorporado ao mundo espiritual cristão e islâmico.
    • Do ponto de vista cristão, a alquimia era um espelho natural das verdades reveladas: a pedra filosofal representa Cristo, e sua obtenção pelo fogo do enxofre e pela água do mercúrio simboliza o nascimento do Cristo Emanuel.
    • A assimilação ao cristianismo fecundou espiritualmente a alquimia, enquanto o cristianismo avançou por um caminho que, pela contemplação da natureza, podia conduzir à verdadeira gnose.
    • No mundo islâmico a adoção foi ainda mais fácil: o islã sempre esteve pronto a reconhecer como legado de antigos profetas qualquer arte pré-islâmica oferecida sob o signo da sabedoria (hikmah), e Hermes Trismegisto é frequentemente equiparado a Henoc (Idris).
    • A doutrina da unidade do ser (wahdat al-wujud), interpretação esotérica do credo unitarista islâmico, deu ao hermetismo um novo eixo, restituindo toda a amplitude ao primitivo horizonte espiritual e libertando-o da aspereza do helenismo tardio.
  • Com a incorporação gradual ao mundo espiritual da Antiguidade clássica e da religião semítica, a alquimia ampliou seu acervo de imagens, mas certos traços fundamentais permaneceram constantes ao longo dos séculos, entre eles um plano concreto da obra alquímica cujas fases são designadas por determinados processos e por certa mudança nas cores da matéria.
  • No mundo romano-cristão a alquimia penetrou primeiro por Bizâncio e depois em maior medida pela Espanha muçulmana, tendo no mundo islâmico já alcançado seu apogeu com Jabir ibn Hayyan, discípulo do sexto imã xiita Jafar al-Sadiq, que fundou no século VIII uma verdadeira escola deixando centenas de escritos alquímicos.
    • O nome de Jabir tornou-se símbolo dos ensinamentos alquímicos, e o autor da Summa Perfectionis, italiano ou catalão do século XIII, latinizou-o como Geber.
    • Com a adoção da ideologia grega pelo Renascimento irrompeu no Ocidente uma nova onda de alquimia bizantina, e nos séculos XVI e XVII muitas obras alquímicas antes circuladas em manuscrito foram impressas.
  • A decadência do hermetismo europeu iniciou-se já no século XV à medida que o pensamento ocidental se tornava mais humanista e racionalista, embora elementos de uma autêntica gnose, deslocados do âmbito teológico pelo caráter unilateralmente sentimental da nova mística cristã e pela propensão agnóstica da Reforma, tenham se refugiado nas especulações alquímicas.
    • Nesse movimento incluem-se as reminiscências herméticas observáveis em Shakespeare, Jakob Boehme e Johann Georg Gichtel.
    • Mais que a alquimia propriamente dita, perdurou a Medicina dela derivada, à qual Paracelso deu o nome de Medicina espagírica, derivado dos termos gregos correspondentes ao alquímico solve et coagula.
    • A alquimia europeia pós-renascentista tem caráter fragmentário e lhe falta o fundo metafísico para ser uma arte espiritual, o que se diz de seus últimos expoentes do século XVIII, apesar de homens eminentes como Newton e Goethe a ela se terem dedicado sem êxito.
  • Não pode existir uma alquimia livre-pensadora e hostil à religião, pois o primeiro requisito de todo arte espiritual é o reconhecimento do que a condição humana precisa para sua salvação, e a alquimia se destruiria a si mesma se se negasse a reconhecer as verdades reveladas pelo cristianismo.
    • Afirmar que a alquimia ou a ciência hermética é uma religião autossuficiente ou um paganismo dissimulado encerra necessariamente o germe do racionalismo e da adoração do homem, anulando de antemão todo esforço voltado ao magistério interior.
    • O espírito não iluminará a quem o negue a ele ou ao Espírito Santo em qualquer de suas revelações.
    • A alquimia, não sendo em si uma religião, necessita ser confirmada pela Revelação dirigida a todos os homens, e essa confirmação consiste em que seu próprio caminho e sua obra constituem o meio de acesso ao eterno significado da mensagem de salvação.
  • O caráter apócrifo de muitos textos alquímicos ou a impossibilidade de situar cronologicamente seus autores não lhes retira valor, pois esses nomes, como o latinizado Geber, são mais que assinaturas: são indícios que apontam para uma determinada rama da transmissão.
    • Se um texto hermético é autêntico ou foi urdido arbitrariamente não podem revelar o estudo filológico nem a comparação com a Química empírica: a pedra de toque é a coesão espiritual de todo o legado em si.
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