A ressurreição dos corpos é transposta metafisicamente por
Guénon a partir do estado do sono profundo, condição de Prajna no
hinduísmo, em que os diferentes estados da manifestação individual externa ou interna são reconduzidos em modo principial sem distinção, encontrando-se dentre as possibilidades do Si, que é supremamente consciente em si mesmo de todas essas possibilidades contempladas não distintamente.
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O corpo glorioso não é um corpo no sentido próprio da palavra, mas é a sua transformação ou transfiguração, isto é, a transposição além da forma e das outras condições da existência individual.
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O corpo glorioso é a realização permanente e imutável da qual o corpo não é senão a expressão transitória em modo manifestado.
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A ressurreição da carne é apenas uma forma de exprimir a ressurreição dos corpos, que entendida esotericamente é a realização em si do Homem Universal, que faz com que o ser reencontre em sua totalidade os estados considerados como passados em relação ao seu estado atual, mas que são eternamente presentes na permanente atualidade do ser extratemporal, segundo
Guénon.
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O ponto de vista religioso se limita à consideração do fim de um ciclo secundário, além do qual pode ainda haver questão de uma continuação de existência no estado individual humano, o que não seria possível se se tratasse da integralidade do ciclo ao qual pertence esse estado, segundo
Guénon.
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A transposição pode ser feita partindo do ponto de vista religioso, como indicado para a ressurreição dos mortos e o corpo glorioso, mas praticamente não é feita por aqueles que se atêm às concepções ordinárias e exteriores e para quem não há nada além da individualidade humana.
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Existe uma diferença essencial entre a noção religiosa de salvação e a noção metafísica de libertação, à qual
Guénon retornará.
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Em certos casos excepcionais, a transposição dos elementos pode efetuar-se de tal forma que a própria forma corporal desapareça sem deixar nenhum traço sensível, passando inteiramente ao estado sutil ou ao estado não manifestado, de modo que não há morte propriamente falando, segundo
Guénon.
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Guénon evocou a esse propósito os exemplos bíblicos de Henoc, Moisés e Elias.
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A transformação do próprio corpo não pode ser senão sua transposição em modo principial, sendo o corpo transformado propriamente a possibilidade corporal libertada das condições limitativas às quais está submetida em sua existência em modo individual, e reencontrando-se necessariamente em seu lugar e ao mesmo título que todas as outras possibilidades na realização total do ser, segundo
Guénon.
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Esse é o sentido superior da ressurreição e do corpo glorioso, embora esses termos possam também ser empregados às vezes para designar algo que de fato se situa apenas nos prolongamentos do estado humano, mas que corresponde em certa forma a essas realidades de ordem principial e é como um reflexo delas, o que é especialmente o caso para certas possibilidades inerentes ao estado primordial.
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A pretensa eternização de uma existência individual contingente não é senão a consequência de uma confusão entre a eternidade e a imortalidade, sendo essa ilusão mais facilmente desculpável do que a dos espíritas e outros psiquistas que creem poder demonstrar a imortalidade cientificamente, pois a experiência nunca poderá provar mais do que uma sobrevivência de alguns elementos da individualidade após a morte do elemento corporal físico, segundo
Guénon.
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Ao ponto de vista da ciência positiva, mesmo essa simples sobrevivência de elementos materiais está ainda longe de ser solidamente estabelecida, apesar das pretensões das diversas escolas neo-espiritualistas.