“Deus faz o que quer”: o que significa, não que Deus, como um indivíduo, possa ter desejos arbitrários, mas que o Ser puro, por sua própria natureza, comporta a Total Possibilidade; ora, a ilimitação desta implica possibilidades, por assim dizer, absurdas, isto é, contrárias à natureza do Ser, que todo fenômeno é, no entanto, suposto manifestar, e manifesta quer queira quer não; essas possibilidades só podem, evidentemente, realizar-se de modo ilusório e delimitado, pois nenhum mal pode penetrar na ordem celeste. O mal, longe de constituir metade do possível – não há simetria entre o bem e o mal –, encontra-se limitado pelo espaço e pelo tempo a ponto de se reduzir a uma quantidade ínfima na economia do Universo total; é necessariamente assim, pois “a Misericórdia envolve todas as coisas”.
Em outras palavras: a infinitude divina implica que o Princípio supremo consinta, não apenas em se limitar ontologicamente – por graus e em vista da Manifestação universal –, mas também em se deixar contradizer dentro dela; todo metafísico admite isso intelectualmente, mas está longe de ser possível que todos sejam capazes de aceitá-lo moralmente, ou seja, de se resignar às consequências concretas do princípio da absurdez necessária.
A fim de resolver o espinhoso problema do mal, alguns afirmaram que nada é mau, pois tudo o que acontece é “vontade de Deus”, ou que o mal só existe do “ponto de vista da Lei ”, o que não é de forma alguma plausível, primeiro porque é Deus quem promulga a Lei e, segundo, porque a Lei existe por causa do mal e não o contrário. O que se deve dizer é que o mal se integra no Bem universal, não como mal, mas como necessidade ontológica, como observamos acima; essa necessidade está subjacente ao mal, é metafisicamente inerente a ele, mas sem, por isso, o transformar em bem.
Portanto, não se deve dizer que Deus “quer” o mal – digamos antes que Ele o “permite” – nem que o mal é um bem porque Deus não se opõe à sua existência; por outro lado, podemos dizer que devemos aceitar a “vontade de Deus” quando o mal entra em nosso destino e não nos é possível escapar dele, ou enquanto isso não nos for possível. Além disso, não devemos perder de vista que o complemento da resignação é a confiança, cuja essência é a certeza metafísica e escatológica que carregamos dentro de nós; certeza incondicional do que é, e certeza condicional do que podemos ser.