As tentativas contemporâneas de voo e a escalada do Evereste são impulsionadas não apenas pela curiosidade fútil herdada de Pandora, mas também por um desejo subconsciente de recuperar o que foi perdido na Queda, uma vez que o anseio inerente ao ser humano de transcender sua condição, frustrado no plano da alma, manifesta-se em um plano inferior.
O traço característico do Homem Primordial era a posse de uma natureza supra-humana, e o homem conserva virtualmente a necessidade de restabelecer a relação entre a alma e o Coração divino.
A frustração desse anseio legítimo no plano da alma força sua manifestação no plano inferior, resultando na superstição do “mais alto” e do “mais longe”, um resquício incompreendido do passado.
A doutrina dos três mundos — do Espírito, da alma e do corpo — presente em todas as religiões, situa o mundo do Espírito além do alcance das faculdades humanas, sendo o Coração a porta de acesso a ele por meio do Intelecto, a faculdade supra-humana que permite a ligação da alma com o Espírito.
No Hinduísmo, essa faculdade é representada pelo terceiro olho; no Cristianismo e no Islamismo, pelo “Olho do Coração” ou “Fonte do Coração”, de onde a alma bebe o “Elixir da Vida”.
A tradição cristã associa ambos os símbolos na lenda da queda de Lúcifer, cujo olho frontal se tornou a esmeralda do Santo Graal.
A metafísica, estudo do que está além da natureza, tem por objetivo abrir o espírito à penetração da luz do Intelecto, proporcionando a mais alta elevação de que o homem como tal é capaz, culminando no contato com o supra-humano, estado expresso pelo termo taoista “Homem Verdadeiro”.
O humanismo, que passou a dominar o pensamento ocidental nos últimos quatrocentos anos, ao basear-se no homem como mero membro do reino animal e negligenciar o supra-humano, paradoxalmente priva o espírito humano de suas possibilidades ascendentes, confinando-o a uma existência limitada.
A filosofia moderna se mostra indiferente aos graus superiores do universo, e termos como intelecto e metafísica são frequentemente usados de forma deturpada, como relíquias de um passado monárquico em uma república.
O uso incorreto do termo “intelectual” para designar atividades anti-intelectuais e a manutenção de palavras como “espiritual” na retórica de humanistas ateus ou agnósticos exemplificam a confusão terminológica e a perda do significado original.
O mundo que lança foguetes espaciais é, na realidade, desprovido de movimento ascendente em direção aos planos superiores, sendo dominado por uma perspectiva abissal ou, na melhor das hipóteses, totalmente plana.
A perspectiva dos antigos, ao contrário da moderna, era “alada”, pois considerava a vida contemplativa, que consiste em fixar os pensamentos no Espírito para elevar-se a ele pela intuição intelectual, como o tipo mais elevado de existência.
A crença antiga via a Lua não apenas como um corpo celeste, mas como a sombra do Céu da Lua, o mais baixo dos sete Céus e a primeira etapa espiritual na jornada para o Infinito e o Eterno.
Dante, ao descrever sua ascensão ao Céu da Lua no Paraíso, exemplifica essa concepção de viagem espiritual, uma ideia estranha a uma época que raramente considera tal viagem como real.
Embora os místicos sempre tenham sido uma minoria, mesmo em épocas mais favoráveis à espiritualidade, eles representavam o ideal mais elevado e exerciam uma influência espiritual sobre a sociedade, situação que se alterou profundamente nos tempos modernos, onde essa influência “oficial” foi destruída.
Na Idade das Trevas, o pequeno número de místicos, longe de ser marginalizado, estava em plena concordância com a maioria, representando o ápice da pirâmide social e uma norma respeitada.
A sociedade ainda estava sob o ascendente do Cristo e do exemplo de Maria, cuja escolha da “única coisa necessária” era reverenciada.
As antigas ciências médicas, diferentemente da medicina moderna, eram ramificações da religião, baseadas em verdades cosmológicas recebidas por inspiração ou revelação, que estabeleciam correspondências entre o microcosmo, o macrocosmo e o metacosmo.
As correspondências incluíam relações entre planetas, metais, pedras, cores, notas musicais, partes do corpo, doenças, temperamentos, virtudes, vícios, os Sete Céus e Potências Angélicas.
A prática de uma ciência médica tradicional pressupunha um conhecimento que abarcava desde fisiologia e astrologia até metafísica, teologia e liturgia, aliado a uma aptidão natural para a cura.
A medicina moderna, apesar de ser uma invenção puramente humana baseada na experiência prática e de ter um caráter sacro por responder a uma necessidade urgente, não tem qualquer relação com as ciências antigas, cujas curas notáveis, embora sujeitas a exageros, são dignas de crédito.
A adoção fragmentária da acupuntura por alguns médicos ocidentais ilustra a incompatibilidade, pois essa técnica se baseia em correspondências que a pesquisa experimental não poderia detectar e que a ciência moderna não pode explicar.
A tentativa de explicar a acupuntura como de origem empírica é uma hipótese insustentável diante da natureza radicalmente diferente da abordagem científica antiga e da complexidade de suas correlações.
Embora a medicina moderna seja necessária em um mundo superpovoado e doente, onde falta quem pratique a ciência sacra, os antigos provavelmente a considerariam uma consequência do humanismo, que ao mesmo tempo gera muitas doenças que ela precisa tratar.
Os antigos notariam o aspecto suicida do humanismo e da medicina moderna, que, ao permitir que o homem desrespeite a lei da seleção natural, tende à degenerescência da espécie e à abolição da saúde.
A parábola dos talentos ilustra essa tendência autodestrutiva, em que a ciência, ao fim e ao cabo, vai de encontro às suas próprias intenções, tirando até o que parece ter.
O aspecto mais sinistro da situação atual da medicina é sua usurpação do lugar de algo que toca o Absoluto, dedicando ao corpo a energia que outrora era consagrada ao tratamento das almas, numa época em que se considerava que todas as almas estavam doentes, exceto raras exceções.
Atualmente, a maioria das almas é considerada sã ou não carente de tratamento, perdendo-se de vista o abismo que separa essa pretensa saúde da perfeita saúde da alma.
Os antigos tinham consciência da doença de suas almas porque sua civilização era fundada na ideia da saúde psíquica e dominada pela noção da alma perfeita, noção esta que, baseada em princípios universais, é comum a todas as grandes religiões.
Aquele que reintegra o estado do Homem Primordial e recupera a plena saúde da alma distingue-se pela consciência do “Reino dos Céus interior”, sendo capaz de refletir as Qualidades Divinas como um espelho.
O ideal mais elevado no plano humano, definido como a majestade e a beleza da alma, acrescidas da santidade e da humildade, é encarnado nas civilizações teocráticas pelo Fundador da religião e por seus primeiros companheiros, sendo perpetuado e glorificado em toda a cultura, dos túmulos dos santos à liturgia, à arte e à arquitetura.
A majestade reflete o Rigor Divino e a beleza, a Misericórdia Divina, sendo a santidade fruto do contato com o Espírito e a humildade, a consciência das limitações da alma.
A Cruz simboliza essas virtudes: a santidade e a humildade no alto e no baixo; a majestade e a beleza nos lados esquerdo e direito, respectivamente, representando também a unidade e a totalidade da alma perfeita.
A etimologia de “santidade”, “integralidade” e “saúde” revela sua origem comum, assim como as virtudes de sinceridade e simplicidade são inseparáveis da indivisibilidade da alma.
A causa principal da doença na alma é a perda da relação direta com o Coração, o que a priva do contrapeso divino à tendência extrovertida da criação, levando à desintegração dos elementos psíquicos e à perda da unidade, simplicidade e sinceridade.
O propósito da religião é fornecer um impulso em direção ao centro, recolocando a alma na esfera de atração do Coração, seja por meio de ritos ou de qualquer coisa com função espiritual.
A arte sacra, ao ser contemplada, reúne a alma, respondendo a um apelo à unidade, diferentemente da arte profana, que fragmenta.
A civilização moderna, ao contrário das sacras, não exige a unidade da alma e, ironicamente, a única civilização que deposita esperança no ambiente é a que não oferece um ambiente digno, cercando o homem de elementos que promovem a doença psíquica.
A educação, o trabalho, o lazer e o vestuário modernos são concebidos para sufocar o senso de majestade e beleza e fragmentar a substância psíquica, eliminando as virtudes de unidade, simplicidade e sinceridade.
O conhecimento da posição central do Sol e do movimento da Terra ao seu redor, presente em alguns sábios da Antiguidade, foi adquirido pela maioria dos homens a partir de Copérnico, mas essa aquisição de um conhecimento inferior coincidiu com a perda de um conhecimento superior e mais valioso: a certeza de que a alma individual gira em torno do sol interior.
Os antigos sabiam que a alma gira em torno do sol interior, apesar da ilusão do ego como centro independente, ilusão a que o homem decaído está sujeito.
Hoje, quando o ego humano atinge o limite máximo de separação do Coração, a ilusão da centralidade própria do ego está no auge, e a maioria duvida ou nega a existência do sol interior.
A perda do conhecimento superior e a aquisição do inferior são consequências da mudança geral da habilidade humana, antes aplicada ao espiritual e agora ao material.
A virtude teologal da esperança consiste em considerar a vida humana como uma viagem que leva à satisfação eterna de todos os desejos, desde que certas condições sejam cumpridas, visando sempre a “remontada” da corrente, embora com diferentes métodos segundo as religiões e os indivíduos.
O objetivo final da aspiração religiosa, mesmo em seu nível mais baixo, é o reatamento do contato com o Espírito, por meio da Graça obtida pela adoração.
Até recentemente, essa era a orientação universal do homem: todas as “embarcações” remavam, de algum modo, contra a corrente.
Nos últimos dois séculos, um número crescente de “embarcações” deixou de lutar contra a corrente e passou a segui-la, proclamando como “progresso” essa inversão de direção e convidando os que ainda resistiam a se “libertar das cadeias da superstição”.
O novo credo, raramente examinado em detalhe, implica que os esforços milenares da humanidade para remar contra a corrente foram inúteis e sem objeto.
Os revolucionários e até as grandes figuras espirituais, como Buda, Cristo e Maomé, são reivindicados como precursores do progresso, ignorando-se que sua missão era, na verdade, reconduzir os homens à perfeição primordial.
A perda da esperança no progresso “vertical” do indivíduo para o Eterno levou os homens a depositar suas esperanças em um vago progresso “horizontal” da humanidade para um bem-estar terrestre, de gozo breve e duvidoso.
A incredulidade no Transcendente não elimina os elementos psíquicos cuja função é aspirar a Ele, e essa substância psíquica “inutilizada”, especialmente nos líderes do mundo moderno, torna-se perigosa e geradora de absurdos.
A religião semi-religiosa e tíbia dos “mestres pensadores” modernos é impotente para abrir caminho às mais altas aspirações da alma, que, invertidas, caem ao nível das aspirações terrestres, gerando deformações e caos.
A fé, a esperança e a caridade, asas da alma, quando não cumprem sua função, degeneram em fanatismo pela pseudorreligião do progresso e em um otimismo grotesco que ignora a realidade.
O entusiasmo apaixonado, fruto da queda da mais alta faculdade da alma, que deseja o Divino, dissipa-se na busca vã por um Absoluto terrestre.