HANI, Jean. La divine liturgie: aperçues sur la messe. Paris: Éditions de la Maisnie, 1981.
A finalidade última da Divina Liturgia é a transformação santificante do homem, identificada pela tradição cristã com a deificação, a theosis.
O mistério de Cristo abrange toda a economia da Encarnação, morte, ressurreição, Ascensão e efusão do Espírito Santo.
O discurso de Cristo após a Ceia em João 17, 21-23 constitui a carta fundamental da theosis: que todos sejam um como o Pai e o Filho são um.
Paulo em Efésios 2, 4-6 afirma que Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em Sua Pessoa.
Um hino vespertino bizantino da festa da Ascensão celebra a elevação da natureza de Adão acima das Principados e Potestades.
Leão Magno afirma que em Cristo os homens penetraram no mais alto dos céus e foram colocados à direita do Pai.
Paulo em 2 Coríntios 3-4 anuncia a transfiguração do homem na imagem do Cristo, ícone de Deus, como obra do Senhor que é Espírito.
Os Padres e a Tradição traduzem em termos metafísicos o que a Escritura expressa em termos existenciais sobre a deificação do homem.
Gregório de Nissa escreve que Deus criou o homem com a ordem de tornar-se Deus, concedendo-lhe como penhor a liberdade.
Outros Padres formulam o mesmo princípio: Deus misturou Seu sangue ao nosso para fazer de nós um único ser com Ele; o Cristo se incarnou para que o homem se tornasse Deus.
Máximo o Confessor afirma que pela participação nos santos e vivificantes mistérios o homem obtém a intimidade e a identidade com Deus.
Uma oração secreta do rito latino pede a Deus que torne os fiéis participantes de Sua única e soberana Divindade pelos admiráveis intercâmbios realizados no sacrifício.
A oração da mistura da água e do vinho no ofertório latino pede participação na divindade dAquele que se dignou unir-se à humanidade.
O processo da Divina Liturgia apresenta analogia com o da alquimia, pois em ambos os casos ocorre transformação simultânea de um elemento material e do homem engajado na operação.
A alquimia não deve ser reduzida à sua reputação popular de ciência maldita; entre os verdadeiros alquimistas figuram Basílio Valentim, Gerberto que foi papa, os franciscanos Roger Bacon e Raimundo Lúlio, Alberto Magno e Tomás de Aquino que lhe tributou estima.
O Grande Obra visava obter a Pedra Filosofal pela transmutação de uma matéria prévia composta de Enxofre, Mercúrio e Sal, entendidos como suportes de três princípios cosmológicos.
O processo comportava três fases: obra ao negro, obra ao branco e obra ao vermelho, resultando numa matéria sublimada receptáculo do spiritus mundi.
A alquimia operativa era apenas o aspecto exterior da alquimia espiritual, cujo fim era a transformação e espiritualização do homem, numa estrutura dupla presente em outros ofícios das sociedades tradicionais.
Angelus Silesius emprega as operações materiais da alquimia para designar as fases da apreensão mística da Divindade.
As três fases do Grande Obra correspondem aos três graus da iniciação cristã, e a missa corresponde especificamente à obra ao vermelho.
O batismo corresponde à obra ao negro como morte simbólica; a confirmação corresponde à obra ao branco como ressurreição por potência do Espírito; a eucaristia corresponde à obra ao vermelho como accomplissement final da transmutação.
O Cristo, assimilado à Pedra angular e à pedra de Jacó, corresponde à Pedra Filosofal como expressão simbólica do homem transcendente.
O cálice corresponde ao Ovo Filosófico ou vaso hermético como receptáculo da matéria prima.
O ternário Sangue-Água-Espírito presente no cálice evoca o ternário alquímico Enxofre-Mercúrio-Sal; na alquimia espiritual o mercúrio anímico torna-se água ígnea sob influência do enxofre correspondente ao sangue, transformado pelo sal que é o Espírito.
A obra ao negro e a obra ao branco são concomitantes na consagração porque se trata de teurgia, ação operada diretamente por Deus para quem não há antes nem depois; a comunhão pode ser considerada, do ponto de vista do fiel, como a obra ao vermelho.
O mecanismo do sacrifício opera sobre dois planos simultâneos, o objetivo dos Dons transformados e o subjetivo do fiel transformado pela participação.
A definição da tradição hindu formula o mecanismo: o sacrificante passa do estado dos homens ao dos deuses porque o sacrifício é o outro Si dos deuses, e o sacrificante, identificando-se ao sacrifício, identifica-se ao deus.
A oferenda tem natureza ambivalente: é o fiel na medida em que é doada por ele, e é o deus na medida em que, sendo oferecida, passa do homem ao deus.
O rito antigo do ofertório, onde os fiéis traziam em procissão ao altar a matéria do sacrifício, ilustrava concretamente esse mecanismo.
O homem traz seu dom que o representa; Deus o toma, transforma-o em Seu Ser próprio e, na comunhão, o restitui ao homem para que este seja transformado e penetre no Ser divino.
O sacrifício é fundamentalmente o sacrifício do Eu e a emergência do Si, operação que se atualiza na Divina Liturgia em seus dois planos.
O Eu é a individualidade empírica, o exterior limitado do homem; o Si é a personalidade transcendente, totalmente espiritual, o fundamento da pessoa no sentido forte, o que os místicos chamam de castelo interior e Eckhart chama de Grund.
O Si é realidade hipercósmica, o deus no homem e a imagem de Deus no homem segundo o Gênesis; difere das noções de Self em Freud e Jung, restritas ao plano psicológico.
No sacrifício, os elementos limitativos da personalidade e o Eu como concreção do egoísmo são imolados, libertando o Si que estava aprisionado.
Cristo, Homem-Deus, realizou isso em Seu sacrifício de uma vez por todas: crucificou o velho homem e ressuscitou como homem novo no corpus glorificationis, tornando-Se Aquele que faz nascer o Si em todo homem a Ele incorporado.
Paulo sintetiza a realização: não sou mais eu que vivo, é o Cristo que vive em mim.
A Cruz é o lugar e o instrumento da transubstanciação do homem, expressão simbólica da transsubstanciação operada no altar.
O eixo horizontal da Cruz simboliza as tendências do Eu; o eixo vertical simboliza as propensões espirituais.
No ponto de intersecção dos dois eixos o Eu vem morrer e sublimar-se, conservando apenas os elementos orientados para o alto; esse ponto é o lugar do Si.
Na iconografia, o ponto central é ornado pelo Coração radiante ou pela Rosa, dois símbolos do florescimento do Si e da theosis.
Quando o homem integra sua personalidade divina, a imagem de Deus nele reencontra seu arquétipo celeste, definição metafísica da salvação.
A reintegração do homem em Deus pelo sacrifício arrasta consigo todo o cosmos, pois o homem é microcosmo e espelho do mundo.
O sacrifício do Eu anula o sacrifício de Deus entendido como exteriorização de Deus em Sua criação, pois a criatura refaz em sentido inverso o trajeto de Deus indo à criatura.
Cristo, primeiro como Homem-Deus, operou a redenção de todo o cosmos; o homem deificado o segue nesse caminho de retorno ao Princípio.
O ícone da Trindade de André Rubliov representa simbolicamente essa alquimia espiritual e resume o sentido do sacrifício eucarístico em relação à economia da salvação.
Os olhares dos anjos voltados uns para os outros exprimem a êxtase da Essência divina; o movimento parte do Espírito Santo à direita, passa pelo Filho ao centro, envolve o Cosmos figurado pela árvore e pelo rochedo, e resolve-se no repouso na postura vertical do Pai à esquerda.
A mesa quadrada com o Cálice eucarístico, a Árvore da Vida, a verticalidade do pé do Cálice, o hieróglifo da terra e a verticalidade do Templo acima do anjo da esquerda exprimem a Queda, a aspiração da Terra ao céu, a Redenção operada pelo Filho e a reintegração de todas as coisas em Deus.
As mãos dos anjos convergem para o sinal da terra: o mundo, separado de Deus como ser de natureza diferente, está incluído no círculo sagrado da comunhão do Pai e segue o movimento circular que se resolve no templo-palácio figura da Igreja.
O templo permanece na imobilidade do repouso do Grande Sábado, termo do movimento trinitário; o ciclo do mistério cósmico é fechado na visão escatológica da Nova Jerusalém, mediada pelo sacrifício eucarístico.