A espiral consiste em linha que se enrola sobre si mesma e manifesta o movimento circular saindo do ponto de origem e prolongando-o indefinidamente como linha sem fim que liga extremos do devir, simbolizando emanação, extensão, continuidade do ciclo e ritmos repetitivos da vida, e a espiral logarítmica se destaca por crescer sem alterar a figura total, exemplificada pela concha de amonita e pela teia da aranha epeira, sendo para Gilbert
Durand um glifo universal da temporalidade e da permanência do ser através das flutuações da mudança.
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Ponto de origem e movimento circular
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Devir cíclico e ritmos repetitivos
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Espiral logarítmica e crescimento sem mudança de forma
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Amonita e aranha epeira como exemplos
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Gilbert
Durand e temporalidade com permanência
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A dupla espiral explicita a espiral simples ao distinguir evolução e involução, aparecendo no art celta, românico e grego, como no capitel jônico, e na China na figura do yin-yang, ornando báculos em forma de T e em forma de S em portais românicos, como em Auxerre, o que revela que o motivo da espiral corresponde ao do caduceu e remete à figura da hélice em torno de um eixo como expressão matemática do desenvolvimento do ser através dos graus da existência universal.
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Evolução e involução como dupla polaridade
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Capitel jônico como exemplo grego
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Yin-yang na China
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Auxerre e portais românicos
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Hélice e eixo como figura fundamental do movimento universal
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Em um volume natural como a concha de caracol, um corte vertical produz eixo vertical com linha espiral ascendente ao redor, figura do bastão de Asclépio como atributo médico semelhante ao caduceu mas sem a segunda espiral, enquanto um corte horizontal dá a espiral plana materializada na crosse de samambaia, e a dupla espiral plana corresponde à estrutura do caduceu.
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Concha de caracol como matriz geométrica
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Bastão de Asclépio como atributo da medicina
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Espiral plana e crosse vegetal
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Dupla espiral plana e caduceu
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A crosse desempenha no báculo pastoral o mesmo papel dos serpentes do caduceu e conserva a mesma significação ligada à função pontifical, podendo variar por ornamentos que acrescentam, especificam ou modulam o simbolismo geral.
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Crosse como equivalente funcional dos serpentes
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Função pontifical como foco do símbolo
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Ornamentos como especificações
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O tipo mais simples de crosse é a espiral isolada, geométrica ou vegetal, e na forma vegetal confere ao conjunto aspecto de bastão florido, simbolismo particular apenas assinalado.
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Um tipo relevante faz a crosse em forma de serpente, retornando ao caduceu, e essa forma não implica sentido satânico por ser o símbolo do serpente ambivalente, sendo o serpente entendido como imagem do Cristo quando traz cruz entre os dentes ou porta cabeça de cordeiro, interpretação fundada na aproximação com o Serpente de bronze que o Evangelho de João apresenta como símbolo do Cristo.
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Crosse serpentiforme
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Ambivalência do símbolo do serpente
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Abbé Auber como referência interpretativa
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Serpente de bronze e Evangelho de João como base
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As representações do Serpente de bronze com o animal enroscado na haste vertical da cruz se identificam ao bastão de Asclépio e se relacionam ao Cristo como médico, mas o sentido fundamental do serpente espiralado remete ao movimento cósmico e ao ouroboros aplicado ao Cristo, de modo que o serpente na crosse pode significar o Cristo como Verbo cósmico, fonte do universo e primeira revelação do mistério do ser único manifestando-se na multiplicidade e no circuito incessante da vida que cria, devora e cria de novo.
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Serpente de bronze e bastão de Asclépio como equivalência formal
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Cristo como médico e cura
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Ouroboros como ciclo cósmico aplicado ao Cristo
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Verbo cósmico e multiplicidade como revelação primordial
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Uma crosse em que o serpente se volta contra o cordeiro, muitas vezes com a boca aberta sobre ele, costuma ser interpretada como Satanás atacando o Cristo, mas pode encobrir sentido em que o serpente representa o ciclo cósmico que parece devorar o Cordeiro de Deus, vítima imolada desde o princípio do mundo segundo o Apocalipse, de modo que o cordeiro devorado expressa o Verbo involuindo no ciclo do mundo e do tempo como encarnação em vista da redenção, ou ainda dois aspectos do Verbo em unidade, Verbo-cordeiro celeste e Verbo-serpente cósmico, indicando simultaneamente criação e redenção.
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Serpente e cordeiro como dupla leitura
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Apocalipse e o Cordeiro imolado desde o princípio
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Encarnação como involução do Verbo no tempo
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Dois aspectos do Verbo como unidade simbólica
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Há casos com dois serpentes na crosse, incluindo variante com cruz e dois serpentes ao pé da haste vertical à direita e à esquerda como versão do caduceu, e há forma mais frequente em que um segundo serpente nasce do corpo do primeiro, podendo aparecer um anjo com lança pisando o segundo serpente, o que indica polaridade negativa sob aspecto maléfico e remete à iconografia de São Miguel derrotando o dragão, símbolo da vitória da luz sobre as trevas e da ordem sobre o caos.
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Dois serpentes e cruz como variação do caduceu
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Segundo serpente como derivação do primeiro
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Anjo com lança e São Miguel como motivo iconográfico
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Luz versus trevas e ordem versus caos
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Existem casos mais ambíguos em que a crosse contém a Anunciação, tema frequente, e o anjo coloca o pé sobre o segundo serpente, mas o animal pode aparecer ereto entre a Virgem e o anjo, o que dificulta lê-lo como serpente esmagado e permite entender a cena como análoga ao motivo serpente e cordeiro, isto é, como expressão da encarnação, reafirmando que o simbolismo fundamental dessas variações é a descida do Verbo no ciclo cósmico.
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Anunciação como tema ornamental recorrente
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Virgem e anjo como personagens centrais
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Serpente ereto como sinal de ambiguidade
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Encarnação como interpretação alternativa
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O resumo afirma que o báculo episcopal, como cetro do sacerdócio, pertence ao mestre que ensina, dirige e corrige e é sinal de autoridade espiritual vinda do alto, o que sua verticalidade exprime como lembrança do axis mundi e como imagem do Verbo cosmocrator que governa o mundo por sua lei, enquanto ornamentos espiralados ligados a mito cosmogônico da criação recordam que essa lei realiza equilíbrio e harmonia no indivíduo orientando a evolução espiritual até o cumprimento total em consonância com Deus e com o mundo, e o porte do cetro pelo pontífice significa missão de atualizar por ritos o reinado do Cristo no ser humano e na sociedade.
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Báculo como cetro do sacerdócio
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Verticalidade: axis mundi e autoridade do alto
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Verbo cosmocrator e lei governante
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Espirais: criação, equilíbrio e harmonia
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Atualização ritual do reinado do Cristo
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A crosse episcopal desempenha no cristianismo o papel de objetos rituais em sociedades tradicionais ao oferecer ensino concreto e sintético, pois não se dirige apenas ao mental racional e apresenta a verdade como evidência a ser meditada, e sua função utilitária revela verdade mais geral quando se torna imagem do mundo ligada a mito cosmogônico, como na cabaça do pastor dogon que resume cosmogonia por formas e figuras gravadas e funciona como arca de salvação no dilúvio, constituindo um mito-objeto legível como liber mutus.
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Objeto ritual como ensino concreto e sintético
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Verdade como evidência a ser meditada
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Dogons e a cabaça do pastor como cosmogonia concreta
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Terra, céu, estrelas, animais, criação e dilúvio como motivos
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Liber mutus e mito-objeto como leitura visual
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Objetos simbólicos combinados criam ambiência própria ao redor do portador e devem ser vistos como catalisadores do sagrado e suportes de meditação, de modo que o báculo episcopal auxilia o pontífice a tomar consciência de forças supra-humanas manejadas e conduz os fiéis a meditar sobre a função pontifical, pois segurar o báculo significa situar-se no eixo figurado pelo bastão, no centro do mundo, dominando o devir simbolizado pelas espirais e assumindo o eixo por onde passam influências espirituais.
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Catalisador do sagrado e suporte meditativo
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Consciência de forças supra-humanas e função pontifical
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Centro do mundo e eixo das influências espirituais
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Devir e espirais como figura do tempo e do ciclo
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Segurar a crosse episcopal manifesta a origem celeste e o fundamento da autoridade e do poder, analogamente ao rei que segura o cetro para indicar que se encontra no meio invariável onde reina o Rei do Mundo, do qual o rei humano é representante visível.
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Origem celeste como fundamento do poder
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Rei e cetro como analogia política do símbolo
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Meio invariável e Rei do Mundo como referência tradicional