Os princípios, por sua natureza intemporal, constituem o verdadeiro objeto de consideração intelectual, e as circunstâncias históricas do debate entre o espiritual e o temporal funcionam apenas como ocasião — não como fonte ou inspiração — para a exposição de verdades de ordem permanente.
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A questão dos rapports entre religião e política é tratada como forma particular e contingente da relação mais fundamental entre o espiritual e o temporal.
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As discussões contemporâneas sobre esse tema não determinam nem a natureza nem a origem das considerações formuladas — seu papel se limita a indicar a oportunidade da exposição.
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Antecipam-se e rejeitam-se interpretações equivocadas que poderiam surgir por paixão política ou religiosa, por ideias preconcebidas ou por simples incompreensão do ponto de vista adotado.
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O que se enuncia teria sido dito da mesma maneira independentemente dos acontecimentos presentes.
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O que mais surpreende nos debates em questão é a ausência de esforço para situar os problemas em seu verdadeiro terreno, distinguindo o essencial do acidental e os princípios necessários das circunstâncias contingentes — lacuna que revela a confusão característica da mentalidade moderna.
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Tal confusão é reconhecida como traço eminentemente característico do mundo moderno, conforme explicado em obras anteriores.
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É lamentável que essa confusão afete até os representantes de uma autoridade espiritual autêntica, que perdem de vista a transcendência da doutrina em nome da qual estão qualificados para falar.
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Impunha-se distinguir a questão de princípio — insuscetível de discussão por pertencer a um domínio que não pode ser submetido a procedimentos essencialmente profanos — da questão de oportunidade, meramente política e diplomática, e portanto secundária.
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A posição adotada é a de situar-se exclusivamente no domínio dos princípios, o que permite permanecer inteiramente fora de toda discussão, polêmica, querela de escola ou de partido.
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Declara-se independência absoluta em relação a tudo que não seja a verdade pura e desinteressada, sem qualquer preocupação de agradar ou desagradar a quem quer que seja.
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Nenhuma das etiquetas em uso no mundo ocidental é adequada para classificar o ponto de vista aqui sustentado.
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A declaração de não enquadramento em categorias correntes é renovada em resposta a insinuações provenientes simultaneamente de lados opostos.
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É precisamente a natureza do ponto de vista adotado — desprendido de todas as contingências — que permite encarar os fatos atuais com a mesma imparcialidade com que se abordariam eventos de um passado remoto.
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A exposição possui alcance inteiramente geral, ultrapassando todas as formas particulares que o poder temporal e a autoridade espiritual podem assumir segundo os tempos e os lugares.
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A autoridade espiritual, nesse contexto, não possui necessariamente forma religiosa — contrariamente ao que se imagina comumente no Ocidente.
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Cabe a cada um fazer a aplicação dessas considerações aos casos particulares, desde que tal aplicação seja feita em conformidade com o espírito tradicional — cujo antônimo são precisamente todas as tendências especificamente modernas.
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O desvio moderno, em um de seus aspectos, será novamente examinado, e os erros que se desenvolveram ao longo dos últimos séculos sobre a relação entre o espiritual e o temporal revelam-se longe de ser novos — mas jamais haviam penetrado tão profundamente na mentalidade comum.
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O que há de mais grave é que esses erros tornaram-se inerentes ao estado de espírito que se generaliza cada vez mais, e — a menos que uma correção se opere em breve prazo — o mundo moderno será arrastado a alguma catástrofe.
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Se existe alguma esperança de salvação para o mundo ocidental, ela parece residir, ao menos em parte, na manutenção da única autoridade tradicional que ainda subsiste — mas para isso é necessário que essa autoridade tenha plena consciência de si mesma.
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A restauração do espírito tradicional é apontada como o único remédio ao desordem atual e o objetivo essencial que orienta toda consideração das contingências.
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Rejeita-se formalmente, de antemão, qualquer afirmação de que as reflexões aqui desenvolvidas tenham sido inspiradas por influências externas quaisquer.
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Enunciadas essas precauções — necessárias por experiência —, dispensa-se qualquer alusão direta à atualidade, a fim de tornar ainda mais sensível o caráter estritamente doutrinal que se quer conservar em todos os trabalhos.
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Não se trata de fornecer novo alimento a discussões consideradas vãs e até mesmo miseráveis, mas de recordar os princípios cujo esquecimento é, no fundo, a única verdadeira causa de todas essas discussões.
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É a independência mesma que permite proceder a essa exposição com plena imparcialidade, sem concessões nem compromissos de qualquer espécie.
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Essa independência só pode ser mantida à condição de permanecer sempre no domínio puramente intelectual — domínio dos princípios essenciais e imutáveis dos quais todo o resto deriva, e pelo qual deve necessariamente começar o redirecionamento necessário.
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Fora do enraizamento nos princípios, só se obtêm resultados exteriores, instáveis e ilusórios — o que constitui uma das formas da própria afirmação da supremacia do espiritual sobre o temporal, objeto desta exposição.
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Prefácio
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Capítulo II - Funções do sacerdócio e da realeza
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Capítulo III - Conhecimento e ação
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Capítulo IV - Natureza respectiva dos Brâmanes e dos Kshatriyas
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Capítulo V - Dependência da realeza em relação ao sacerdócio
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Capítulo VI - A revolta dos Kshatriyas
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Capítulo VII - As usurpações da realeza e suas consequências
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Capítulo VIII - Paraíso terrestre e Paraíso celeste
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Capítulo IX - A lei imutável