Os germes de decadência que se manifestavam no período pós-védico e se tornaram evidentes no tempo do
Buda (século VI a.C.) são o ritualismo estereotipado, o demônio da especulação que transformou a “doutrina secreta” em uma multidão de teorias divergentes, seitas e escolas, a transformação “religiosa” de muitas divindades em objetos de cultos populares, e o perigo panteísta.
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A teoria da reencarnação, ausente no período védico primitivo por ser incompatível com uma visão olímpica e heroica do mundo, é atribuída a influências estrangeiras não-arianas, pertencendo às raças telúricas e matriarcais como a Dravidiana e a Kosaliana.
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Nos textos Brahmana a teoria do duplo caminho já aparece; nos
Upanishads, a “via dos deuses” (deva-yana) conduz ao incondicionado “sem retorno”, enquanto a pitri-yana é aquela pela qual “se retorna”; o sábio Yajnavalkya ensinou ao rei Artabhaga que o que resta após a dissolução individual é apenas o karma.
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Em oposição às correntes especulativas, correntes práticas e realistas se estabeleceram gradualmente, incluindo a Sankhya, que opôs ao perigo panteísta um rígido dualismo, e as correntes do yoga, que reconheceram mais ou menos explicitamente que o atma não aparecia mais como consciência direta e devia ser considerado como o limite de um processo de reintegração.
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No tempo do
Buda existia uma casta de theologi philosophantes que administrava os restos da tradição antiga, tentando estabelecer um prestígio que nem sempre correspondia às suas qualificações humanas ou à sua raça espiritual.
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O kshatra forneceu o principal apoio não só ao sistema Sankhya como também ao Jainismo, a chamada doutrina dos “vencedores” (de jina, “conquistador”), que colocava ênfase na necessidade da ação ascética.
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Do ponto de vista da história universal, o Budismo surgiu em um período marcado por uma crise percorrendo toda uma série de civilizações tradicionais, chamado por alguns de “climactério” da civilização, situado aproximadamente entre os séculos VIII e V a.C.
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Nesse período se enraizaram as doutrinas de Lao-tzu e Confúcio na China, “Zaratustra” surgiu na Pérsia, e o Budismo realizou na Índia uma função análoga de reação e reelevação.
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No Ocidente predominaram processos de decadência: declínio da Hélade aristocrática e hierática, supressão da civilização solar e régia egípcia pela religião de Ísis, início dos fermentos de corrupção e subversão do profetismo israelita no mundo mediterrâneo; a única contrapartida positiva ocidental parece ter sido Roma.
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O Budismo não foi uma revolução antitradicional nem uma doutrina “nova” resultado de especulação isolada, mas uma adaptação particular da tradição indo-ariana que, tendo em conta as condições predominantes, reformulou de modo fresco e diferente ensinamentos preexistentes, aderindo estreitamente ao espírito kshatriya, o espírito da casta guerreira.
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O
Buda era nascido da mais antiga nobreza ariana, e seu povo, os Sakiya, nutria uma aversão particular pela casta brahmana, tendência mantida pelo príncipe Siddhattha com o objetivo de restaurar e reafirmar a pura vontade para o incondicionado.
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O próprio
Buda afirma que os “santos Perfeitos Despertos” de épocas passadas e futuros dirigiram e dirigirão seus discípulos para o mesmo fim que ele, e a doutrina e a “vida divina” proclamada pelo príncipe Siddhattha são repetidamente chamadas de “atemporais” (akaliko).
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Os Brahmanas contra os quais o príncipe Siddhattha se volta são os que dizem saber mas nada sabem, que há muitas gerações perderam a faculdade de visão direta, que abandonaram as leis antigas e se assemelham a “uma fila de cegos em que o primeiro não vê, o do meio não vê e o último não vê”.
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O
Buda opõe-se ao que conhece “apenas por ouvir dizer” e distingue os ascetas e brâmanes que “apenas pela sua própria crença” professam ter atingido a mais alta perfeição de conhecimento daqueles que “reconhecem claramente em si mesmos a verdade em coisas nunca antes ouvidas”.
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O Budismo não nega o conceito de brahmana; ao contrário, os textos usam a palavra com frequência e chamam a vida ascética de brahmacariya, com o objetivo de indicar as qualidades fundamentais em virtude das quais a dignidade do verdadeiro brahmana pode ser confirmada.
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A verdadeira atitude do
Buda em relação ao problema das castas não é uma subversão igualitária sob pretextos espirituais, mas uma retificação e epuração da hierarquia existente, com o princípio proclamado de que “não pela casta se é um pária, não pela casta se é um brahmana; pelas ações se é um pária, pelas ações se é um brahmana”.
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As castas apareceram ao príncipe Siddhattha como perfeitamente naturais e justificadas transcendentalmente, e nunca lhe preocupou subverter o sistema de castas no plano étnico, político ou social; ao contrário, é estabelecido que um homem não deve omitir nenhuma das obrigações inerentes à sua condição.
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O ponto decisivo foi a identificação do verdadeiro brahmana com o asceta, com ênfase sobre o que de fato se evidencia pela ação.
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O Budismo afirma, além da antiga divisão em castas, outra mais profunda e íntima: de um lado os Ariya e os “nobres filhos movidos pela confiança”; de outro, “os homens comuns, sem compreensão para o que é santo, remotos da doutrina santa”.
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O estabelecimento e a difusão do Budismo nunca causaram dissolução do sistema de castas nos séculos posteriores; no Ceilão esse sistema continua ao lado do Budismo, e no Japão o Budismo vive em harmonia com conceitos hierárquicos, tradicionais, nacionais e guerreiros.
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A doutrina budista dos sankhara, ou predisposições pré-natais, retifica a afirmação de que em indivíduos de todas as castas todas as potencialidades positivas e negativas existem em igual medida, e quatro vias são consideradas em alguns textos budistas, das quais a quarta, chamada “caminho dos eleitos”, é reservada aos que gozam das vantagens conferidas por um bom nascimento.
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O príncipe Siddhattha declarou ter atingido o conhecimento por seus próprios esforços, sem um mestre que lhe mostrasse o caminho; assim, na Doutrina do Despertar original, cada indivíduo deve apoiar-se em si mesmo e em seus próprios esforços.
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O Budismo pode legitimamente tomar seu lugar, em uma comparação de tradições, com a raça que se poderia chamar de heroica no sentido do ensinamento hesiódico sobre as “Quatro Idades”: um tipo de homem em que a espiritualidade pertencente ao estado primordial não é mais tomada como algo natural, mas se tornou um objetivo, o objeto de uma reconquista.
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Embora na época do príncipe Siddhattha já existisse um certo obscurecimento da consciência espiritual e da visão metafísica do mundo, o curso posterior da história ocidental produziu uma crescente regressão, materialismo e individualismo, chegando ao ponto em que o objeto de conhecimento direto para o homem moderno é exclusivamente o mundo material.
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A religião ocidental baseada na fé não é inteiramente um caso de tentativa de salvar o que ainda poderia ser salvo, mas antes um conselho do desespero: quem há muito perdeu todo contato direto com o mundo metafísico só pode adotar como forma de religio aquela fornecida pela crença ou fé.
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O Protestantismo enraizou-se em um período em que o humanismo e o naturalismo inauguravam uma fase de “secularização” do homem europeu, e sua ênfase no princípio da pura fé, a desconfiança das “obras” e a oposição a toda organização hierárquica e mediação são características desta situação.
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Um sistema rigorosamente baseado no conhecimento, livre de elementos de fé e intelectualismo, não vinculado à tradição organizada local, mas orientado para o incondicionado, tem algo a oferecer em um período de crise espiritual, embora esse caminho só seja adequado a uma minoria muito pequena dotada de excepcional força interior.
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O Budismo original pode ser recomendado como poucos outros sistemas, particularmente porque, quando foi formulado, a condição da humanidade já manifestava alguns dos sinais e sintomas do declínio espiritual, embora ainda longe dos estreitos do materialismo ocidental.
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O Budismo é uma adaptação prática e realista das ideias tradicionais, principalmente no espírito do kshatriya, da casta guerreira ariana, e isso o torna especialmente relevante para o homem ocidental, cuja linha de desenvolvimento foi guerreira e cuja inclinação para a clareza, o realismo e o conhecimento exato produziu as realizações mais típicas de sua civilização.
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Outros sistemas metafísicos e ascéticos podem parecer mais atraentes, mas tendem a fornecer ao homem moderno oportunidades de ilusões e equívocos; o Budismo, ao contrário, coloca um problema total sem saídas e sem “leite para bebês” nem festas metafísicas para amantes da especulação intelectual.