DAUGE, Yves-Albert. Virgile, maître de sagesse: essai d'ésotérisme comparé. Milano: Arche, 1984
A origem desta obra remonta a Lisboa. Com efeito, para prestar homenagem a Virgílio, esse “Pai do Ocidente”, às vésperas do bimilenário de sua morte, a Fundação Gulbenkian nos convidou a proferir várias palestras nas universidades da capital portuguesa, entre 22 e 25 de junho de 1981. Estimulados pelo interesse demonstrado pela hermenêutica virgiliana — e pela nossa maneira de abordá-la — por parte de nossos colegas e do público de Lisboa, vimos ali a oportunidade de expor uma série de temas que nos são caros e que foram pacientemente amadurecidos ao longo de muitos anos de pesquisa. Posteriormente, essas conferências foram revisadas, enriquecidas, reestruturadas e, três meses depois, nosso Virgílio, Mestre da Sabedoria, em sua forma atual, estava concluído. Concluído de acordo com o plano, bastante restritivo, que nos impusemos: pois, para tratar a fundo tal assunto, seriam necessárias muitas obras como esta.
Ensaio de esoterismo comparado, indica o subtítulo. O que é, então, o esoterismo comparado? É a exploração coerente e sistemática, conduzida de preferência por um único e mesmo pesquisador, dos diversos campos da Gnose universal. Nossos estudos nos convenceram de que esses campos, por mais diferentes que sejam tanto em suas orientações — filosofias, religiões, misticismos, disciplinas de auto-realização, artes, ciências das energias e das mutações, ferramentas tradicionais ou modernas de investigação antropológica — quanto por suas áreas culturais — Antiguidade Clássica, Hermetismo, Cristianismo, Cabala, Hinduísmo, Budismo, Taoísmo, Sufismo, etc. —, são estreitamente complementares e constituem, de fato, os elementos inseparáveis de um saber único (essa é a verdadeira interdisciplinaridade). As mesmas verdades fundamentais se encontram em toda parte, sob vestimentas variadas, além dos limites espaciais e temporais; a mesma luz iniciática se revela em toda parte, sob o véu mutável dos símbolos, além das determinações psíquicas ou sociológicas. Daí a noção, fundamental, de totalidade transhistórica, e a capacidade de diversificar amplamente, sem renunciar nem ao rigor nem à coerência, as chaves e os esclarecimentos da hermenêutica.
Definimos em outro lugar o que entendemos precisamente por esoterismo: uma tomada de consciência radical do real em sua globalidade, suas estruturas essenciais, sua unidade dinâmica e sua finalidade criadora (ver “Luz do esoterismo: perenidade e atualidade”, em Troisième Millénaire 9, julho-agosto de 1983, pp. 36-43). E já demos alguns exemplos de nosso método comparativo, método que se esforça por aliar a exatidão da análise à clareza da síntese, sem cair nos defeitos do confucionismo, do sincretismo, do paralelismo ou do ecletismo: ver nossa contribuição para o Cahier de l’Herne n.º 36, dedicado a Raymond Abellio (1979), sob o título «O caminho heróico e gnóstico para o Eu. Reflexões sobre a filosofia de Raymond Abellio, a Gnose cristã e iraniana e o esoterismo de Virgílio» (pp. 47-83); ou ainda nosso estudo publicado em Troisième Millénaire 3 (jul.-ago. 1982), «Três espelhos da Sabedoria: a Cabala, a Gnose cristã, o Sufismo. Ensaio de síntese» (pp. 62-73).
Animados por esse espírito, apresentamos hoje, no âmbito de nossas pesquisas de esoterismo comparado, este Virgílio, Mestre da Sabedoria, uma tentativa de interpretação que se propõe a ser aprofundada e original de poemas — ainda assim tão conhecidos e comentados —, segundo chaves de exegese longamente elaboradas e verificadas. Pode-se dizer, aliás, que se trata de um trabalho de simbologia fundamental centrado na obra de Virgílio, escolhida pela riqueza, autenticidade e, de certa forma, pela exemplaridade de seu conteúdo. Assim, seu interesse vai além da mera Antiguidade: por meio de seu apelo à totalidade da Gnose, por meio de uma utilização constante dos mais diversos elementos do esoterismo, ele visa a uma renovação da hermenêutica, tanto virgiliana quanto geral.