O Ar, símbolo do Espírito Santo, convida a meditar os diversos sentidos da Escritura, a relacionar as bem-aventuranças aos dons do Espírito Santo e a conhecer Deus pelos sentidos espirituais.
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A Escritura inspirada tem quatro sentidos tradicionais: o sentido histórico ou literal, que reconstitui os eventos ou explica o significado das palavras; o sentido alegórico ou espiritual, de cunho dogmático, que busca no Antigo Testamento a figura do Novo e o que ambos significam sobre a Igreja; o sentido anagógico ou místico, de alcance escatológico, sobre os mistérios do além; e o sentido tropológico ou moral, sobre as realidades da vida moral e espiritual.
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Nos dois últimos sentidos, a Escritura, assim como o simbolismo litúrgico, torna-se meio de exploração do universo interior e método de ensino capaz de despertar no outro as mesmas experiências vividas pelos escritores inspirados e pelos grandes mestres da vida espiritual.
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A Escritura deve ser meditada segundo os quatro sentidos com o auxílio dos comentários tradicionais; são menos as palavras que importam do que as coisas numa lógica de participação e num simbolismo efetivamente vivido; a Escritura torna-se então o sacramento do Verbo de Deus, tão necessário para a nutrição da alma quanto o sacramento do Corpo de Cristo.
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As sete bem-aventuranças (Mt 5,1-12) correspondem aos sete dons do Espírito Santo: a primeira (os pobres em espírito) ao dom de Temor; a segunda (os mansos) ao dom de Piedade; a terceira (os que choram) ao dom de Ciência; a quarta (os famintos de justiça) ao dom de Força; a quinta (os misericordiosos) ao dom de Conselho; a sexta (os puros de coração) ao dom de Inteligência; a sétima (os pacificadores) ao dom de Sabedoria; a oitava bem-aventurança (os perseguidos) confirma as sete anteriores, pois todas supõem alguma forma de perseguição ou sofrimento.
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As bem-aventuranças são como o selo divino na alma, testemunho da ação dos dons e sinal visível do progresso espiritual; Boaventura, citando Hugues de Saint-Victor, distingue os três graus da via de conhecimento: crença de um piedoso assentimento (fé), aprovação de uma reta razão (dom de inteligência) e uso de uma pura contemplação (pureza de coração).
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Deus pode ser apreendido pelos cinco sentidos espirituais, que são funções especiais dos dons de Inteligência e de Sabedoria; Agostinho, nas Confissões, descreve o que ama em Deus: não a beleza dos corpos nem as melodias sensíveis, mas uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um enlace do homem interior, insusceptíveis de qualquer limitação espaço-temporal.
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Boaventura explica que os sentidos espirituais são as percepções mentais da verdade contemplada; na contemplação, o homem percebe a soberana beleza de Cristo como Esplendor, ouve a soberana harmonia como Verbo, saboreia a soberana doçura como Sabedoria, sente o soberano perfume como Verbo inspirado no coração e enlaça a soberana suavidade como Verbo encarnado habitando corporalmente em nós, numa ardente caridade que pelo êxtase transporta o espírito deste mundo ao Pai.