O conhecimento das tendências cósmicas é decisivo para a psicologia, e esse conhecimento está presente nas tradições espirituais, como no símbolo da cruz (tendência ascendente para a origem divina, descendente para as trevas, e extensão horizontal no plano da existência) e nos três gunas hindus (sattwa, tendência ascendente; tamas, descendente; rajas, extensão pelo mundo).
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Os gunas são coordenadas para referir os movimentos psíquicos a um contexto cósmico mais amplo, determinando seu rango na hierarquia dos valores interiores.
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A participação dos gunas numa forma é qualitativa, não quantitativa, mas determinável, ao contrário da falta de critérios válidos da psicologia profana.
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Há “acontecimentos” psíquicos que atravessam verticalmente todas as gradações do mundo sutil (roçando as possibilidades essenciais), outros que obedecem ao oscilar horizontal da psyche, e outros que procedem dos abismos psíquicos infra-humanos.
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Os primeiros são expressos em formas claras e precisas, características da arte sacra; os últimos são formas ininteligíveis, nebulosas e equívocas, exemplificadas na arte contemporânea.
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A constituição psico-física pode apresentar fissuras, e estados de alto valor espiritual podem não se expressar harmoniosamente (como nos “locos de Deus”), assim como estados patológicos podem refletir realidades supra-terrestres incidentalmente.
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O mundo sutil é incomparavelmente mais amplo e variado que o corpóreo, consistindo em formas complexas, dominadas por contrastes e dinâmicas, ao contrário das formas essenciais do puro Espírito, que são ação pura.
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A experiência do mundo sutil é de tipo subjetivo, pois a consciência se identifica com as formas sutis e segue suas tendências, não percebendo as demais formas senão como variantes de sua própria forma egótica.
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Durante o sonho, a consciência subjetiva está reabsorvida no mundo sutil, mas dobrada sobre si mesma; as formas oníricas são projeções do sujeito, embora possam revelar realidades de ordem cósmica (sonhos premonitórios ou telepáticos).
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O conteúdo de um sonho pode ser examinado por sua matéria (resíduos de experiências, memórias) e por sua economia (equilíbrio com a vida consciente), mas sua hermenêutica válida depende do conhecimento do nível de realidade a que as imagens se referem.
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As imagens recordadas ao despertar são sombras das formas vividas no sonho, mas há sonhos de recordação clara e certeza objetiva, com alta qualidade formal, que procedem do Anjo, a Essência que une a alma aos estados supraformais do ser.
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Existem também sonhos de impulso satânico, caracterizados por caricaturas de formas sagradas e sensação de obsessão e vertigem, frequentemente provocados pela atitude pretensiosa que mistura Deus com o “eu” pessoal.
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C. G. Jung desenvolveu a teoria do “inconsciente coletivo” a partir da análise de sonhos cujas imagens não se explicam pela experiência individual, mas têm caráter universal e impessoal, distinguindo entre uma zona pessoal e uma zona coletiva do inconsciente.
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Para Jung, o inconsciente coletivo consiste em disposições latentes não-passíveis de se tornarem conscientes, estruturas ancestrais com raízes na identidade das estruturas cerebrais e na evolução psíquica a partir de um tronco comum com o animal.
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Jung via nos mitos e símbolos a expressão desse fundo psíquico ancestral, que aproxima o homem do animal, carecendo de fundamento intelectual ou espiritual, e sendo a base de toda imaginação e ação conscientes, especialmente em estados de consciência menos desenvolvidos.
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Jung situa as raízes do “inconsciente coletivo” nas regiões inferiores de um fundo psíquico pré-humano, e seu uso do termo “arquétipo” (como “complexo inato” que “possui” o homem e o reduz a uma figura coletiva) difere radicalmente do sentido platônico, onde os arquétipos são determinações primordiais do Espírito puro, refletidas no plano psíquico como virtualidades de imagens e símbolos verdadeiros.
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Os arquétipos platônicos são fontes do ser e do conhecimento, contidos uns nos outros, não se excluindo mutuamente.
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O fenômeno que Jung chama de “possessão” por um arquétipo é, na realidade, a desintegração da forma sutil do homem, onde uma possibilidade interna prolifera às expensas do conjunto.
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No indivíduo humano não degenerado, coexistem em potência diversas qualidades polarmente complementares (homem/mulher, pai/mãe, senhor/servo), cuja coexistência é perfeitamente inteligível e não tem relação com um fundo irracional.
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A tese de um patrimônio psíquico ancestral acumulado por herança, análoga à explicação darwinista do instinto, é insustentável, pois o instinto não é um mecanismo automático, mas uma modalidade não reflexiva da inteligência determinada pela “forma” qualitativa da espécie, um filtro através do qual se manifesta a inteligência universal.
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A inteligência humana, determinada pela forma sutil da espécie, possui a faculdade reflexiva, que permite ao homem singularizar-se, superar sua forma específica ou traí-la.
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O animal permanece fiel à forma de sua espécie, e sua inteligência não reflexiva é um modo da inteligência universal.
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Os sonhos que contêm motivos universais e simbólicos não provêm de um museu de protótipos herdados, mas da capacidade do alma de refletir, em certas condições, verdades intemporais do Espírito puro, sendo o linguagem formal desses sonhos determinado pela tradição do indivíduo.
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Os exemplos de sonhos simbólicos citados por Jung frequentemente apresentam um falso simbolismo, oriundo de círculos pseudo-espirituais, pois o alma pode ser um espelho mágico que se burla de quem o contempla.
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Os desenhos de pacientes psíquicos que Jung interpretava como mandalas autênticos são fruto de coação interior, e não instrumentos de concentração espiritual, como os mandalas sagrados.
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O linguagem simbólico geral (luz = verdade, trevas = erro) presente nos sonhos não requer a hipótese de um inconsciente coletivo, pois o estado de vigília não abarca todo o campo da atividade mental, e o linguagem figurado do sonho não é necessariamente irracional.
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O “inconsciente” dos psicólogos é um conceito relativo e provisório que designa tudo o que, na alma, fica à margem da consciência habitual do “eu” empírico, compreendendo tanto o caos inferior quanto os estados superiores (como o prajna hindú), não delimitando um campo determinado do alma.
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A psicologia das profundidades de Jung, ao operar com o “inconsciente” como entidade definida e ao reduzir a simbologia tradicional a fantasmas ancestrais, apresenta o alma como uma fatalidade irracional, situada fora de toda ordem cósmica inteligível, com o vértice luminoso sendo a consciência do eu que “progride” afastando-se das trevas do inconsciente.
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Jung postula um equilíbrio entre o consciente e o inconsciente, mediado por um centro de cristalização que denomina o “si” (Selbst), termo imitado das doutrinas hindus, mas que para ele é uma hipótese psicológica, um postulado transcendente e uma imagem que nos contém.
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Em outros passos, Jung relativiza o “si”, considerando-o como resultado de um processo psicológico, uma compensação do conflito entre interior e exterior, e o fim da vida, a expressão da combinação de destino chamada indivíduo.
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Jung apropria-se de conceitos tradicionais (arquétipo, si, iniciação) reduzindo-os a um plano psicológico e clínico, chegando a comparar o psicanálise com uma iniciação no sentido sagrado, num sincretismo que revela uma ignorância singular e uma recusa ao contato com verdadeiros representantes das tradições.
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Jung evitou deliberadamente o contato com um sábio como Shri
Ramana Maharshi, temendo, inconscientemente, o contato com uma realidade que desmentiria suas teorias.
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Para Jung, a metafísica não passava de especulação no vazio, uma tentativa do psíquico de superar-se a si mesmo, ao que se pode objetar que essa própria objeção é também um produto da psyche.
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Embora Jung tenha rompido certos moldes materialistas, os influxos que se infiltram pela brecha procedem de setores psíquicos tenebrosos e sinistros (justificados como “inconsciente coletivo”), e não do Espírito, que é o único verdadeiro e o único que pode salvar.