Nicolás Flamel, em De las figuras jeroglíficas, descreve as duas serpentes do caduceu como forças que, ao serem encerradas no recipiente da tumba, se mordem terrivelmente e, por seu violento veneno, se matam mutuamente e se afogam em seu próprio veneno, que depois de mortas convertem em água viva, perdendo sua primitiva forma natural para assumir uma forma nova, mais nobre.
-
A lenda hermética da vara de Hermes completa esse símile: Hermes golpeou com sua vara duas serpentes que se brigavam, e elas, amansadas, enrolaram-se na vara e lhe outorgaram o poder teúrgico de ligar e dissolver, representando a conversão do caos em cosmos por efeito de um ato espiritual que separa e une ao mesmo tempo.
-
Na tradição judaica encontra-se o equivalente na vara de Moisés que se converte em serpente; na mística islâmica, o cajado de Moisés convertido em serpente pelo influxo do Espírito divino representa a alma dominada pelas paixões que pode tornar-se força miraculosa, pois o espírito vence a psique.
-
Essa exegese corânica recorda a diferenciação hindu entre Vidya-Maya, a Natureza universal em seu aspecto luminoso, e Avidya-Maya, a Natureza universal como poder do engano, e nessa diferenciação está o significado mais profundo do adágio hermético: a Natureza pode dominar a Natureza.
Na imagética românica, a figura das duas serpentes ou dos dois dragões que se enrolam e se mordem mutuamente aparece com tanta frequência na ornamentação das construções sagradas que pode ser vista como a assinatura de certas escolas cristiano-herméticas.
-
O mesmo motivo associa-se ao símbolo do nó, cujo significado cosmológico reside em que as duas cordas atadas se unem tanto mais estreitamente quanto mais se puxa para separá-las, sugerindo também a mútua neutralização das forças no estado de caos.
Às vezes um dos répteis que representam o enxofre e o mercúrio é alado e o outro áptero, ou um leão e um dragão lutam entre si: a ausência de asas indica o caráter sólido do enxofre, enquanto o animal alado, seja dragão, grifo ou águia, representa o mercúrio volátil.
-
O leão que vence o dragão equivale ao enxofre que cristaliza e fixa o mercúrio; um leão alado ou um grifo leonino podem representar a união de ambas as forças, tendo o mesmo significado que a imagem do andrógino.
-
O dragão pode representar por si só todas as etapas da obra, segundo apareça com patas, aletas, asas ou sem nenhum desses apêndices, habitando na água, na terra, no ar ou, como salamandra, no fogo.
-
O símbolo alquímico do dragão aproxima-se do símbolo oriental do dragão do Universo, que vive primeiro na água como peixe para elevar-se depois ao céu como animal alado, lembrando também o mito asteca de Quetzalcóatl, a serpente emplumada que se move sucessivamente sob a terra, na superfície e no ar.
-
Todas essas afinidades demonstram que na alquimia se reflete, dentro de certos limites, uma sabedoria cosmológica de alcance universal.