«Qual é a melhor coisa que um homem pode pedir aos deuses?» «Que possa estar sempre em paz consigo mesmo.» Debate entre Homero e Hesíodo, 320.
A «pacificação» de Soma consiste em seu quietus enquanto princípio Varuna, entendido como o ato de apaziguar uma potência perigosa antes que ela destrua o sacrificante.
Na Taittirîya Samhitâ II.1.9.2, por meio de Mitra o sacerdote «pacifica» — samayati — Varuna e assim libera o sacrificante do laço de Varuna
Na Taittirîya Samhitâ V.5.10.5, divindades perigosas poderiam devorar — dhyâyeyuh — o sacrificante, e ele as «aplaca» — samayati — com as oblações
O matador ritual é designado samitr — aquele que dá o quietus — cf. Rig Veda Samhitâ V.43.4 e Shatapatha Brâhmana III.8.3.4
Da mesma forma, o sacrifício da vítima cristã é de expiação, para fazer a paz com o Pai encolerizado
O aplacamento implica uma satisfação da pessoa aplacada, mas a paz — sânti — jamais pode ser feita com um inimigo: de uma forma ou de outra ele deve ser morto como inimigo antes de poder ser feito amigo — embora «seja seu mal, não ele mesmo, o que matam»
Quando a vontade é pacificada — upasâmyate, Maitri Upanishad VI.34 — é «aquietada»; quando o si mesmo psicofísico é «conquistado e pacificado» — jita… prasântah, Bhagavad Gîtâ VI.7 — pelo Si mesmo Supremo, foi sacrificado
O desejo não pode sobreviver ao alcance de seu objeto; só os «mortos», que não desejam porque seu desejo está realizado, estão em paz — daí a frequente associação das palavras akâma (sem desejo) e âptakâma (com o desejo cumprido), por exemplo na Brhadâranyaka Upanishad IV.3.21 e IV.4.6
O latim pax encerra igualmente um significado sinistro — bem visível nas guerras de «pacificação» imperialistas —, e suas conexões remontam a pangere, paciscor e ao sânscrito pâsa, «laço», especialmente o da Morte.
A palavra inglesa dispatch — «despachar», especialmente no sentido de «matar» — contém a mesma raiz; o despacho da vítima é um «despacho feliz» precisamente porque a libera ou solta do laço ou condenação imposto pela Lei
Um tratado de paz é algo imposto — sentido principal de pangere — sobre um inimigo
Somente quando o inimigo — suposto rebelde, em toda guerra justa — se arrepende e se submete voluntariamente ao jugo, a «paz» é realmente um «consentimento» — sânti como samjñâna
Por isso o «consentimento» da vítima sacrificial está sempre assegurado; cf. Shatapatha Brâhmana XIII.2.8.2: «fazê-la consentir» — samjñâpayanti — significa matar a vítima
Nesse caso o «inimigo» é verdadeiramente ressuscitado como «amigo» — ou seja, não é ele mesmo, mas seu mal, o que é «morto»
Há assim uma paz — chamada em outra parte «internecina», reciprocamente destrutiva — de fácil compreensão, mas há também outra «que ultrapassa toda compreensão», e somente a paz por consentimento é real e duradoura.
Gandhi preferia ver os ingleses abandonarem — isto é, sacrificarem — livremente sua dominação sobre a Índia a vê-los obrigados a fazê-lo pela força
O mesmo se aplica à guerra santa do Espírito com a alma carnal: se há de haver «unidade no vínculo da paz» — Efésios 4.3 —, a alma deve ter-se «entregue ela mesma à morte», e não simplesmente ter sido suprimida pela força maior do ascetismo e das penitências violentas
O mesmo princípio se aplica à «guerra dos sexos», que é apenas um caso especial da guerra do Espírito com a Alma