Simbolismo do tiro com arco

«Homenagem a vós, portadores de flechas, e a vós,
arqueiros, homenagem!
Homenagem a vós, atiradores de flechas, e a vós, fabricantes
de arcos!»
Taittiriya Samhita IV.5.3.2 e 4.2

O conteúdo simbólico de um arte está associado originalmente à sua função prática, mas não se perde necessariamente quando o arte passa a ser praticado como um jogo ou esporte, sob condições alteradas.

A posição do tiro com arco na Turquia, muito depois de o valor militar do arco e flecha ter sido anulado pelas armas de fogo, fornece um excelente exemplo dos valores rituais que ainda podem ser inerentes ao que pareceria um “mero esporte” a um observador moderno.

No primeiro quarto do século XIX, Mahmud II foi um dos maiores patronos dos grêmios dos arqueiros, e foi para ele e “para reviver a Tradição” (ihja’ al sunna) que Mustafa Kani compilou seu grande tratado sobre tiro com arco, o Telkhis Resail er-Rümat.

Kani começava estabelecendo a justificação canônica e a transmissão legítima da arte do arqueiro, citando quarenta Hadith, ou ditos tradicionais de Muhammad.

À frente do grêmio dos arqueiros está o “sheikh do campo” (sheikh-ül-meidan), sendo o próprio grêmio uma sociedade claramente secreta, dentro da qual há admissão apenas por qualificação e iniciação.

Quando o aspirante passou todo o curso de instrução e alcançou a perícia, segue-se a aceitação formal do candidato pelo sheikh.

A recepção da “empunhadura” é o signo exterior da iniciação do discípulo, significando algo mais que um mero manejo do arco, pois a empunhadura mesma implica o “secreto”.

A literatura indiana contém uma riqueza de temas nos quais são evidentes os valores simbólicos do tiro com arco.

No Atharva Veda Samhita I.1, o arqueiro é o Senhor da Voz (Vacaspati) com a mente divina.

Uma “flecha” pode ser literalmente um dardo alado, ou metaforicamente uma “palavra alada”.

Como o arco é a arma real por excelência e se põe grande ênfase na retidão do rei, é relevante notar que as palavras sânscrita rju e pali uju, que significam “direito”, pertencem a uma raiz comum que subjaz em “reto”, “retificar” e “régio” (latim regere e rex e sânscrito raja).

Aparadh, o oposto de sadh, é “errar o alvo”, de onde “extraviar-se”, “desviar-se”, “falhar”, “pecar”.

O arco é a arma real por excelência; a perícia no tiro com arco é para o rei o que o esplendor da teologia é para o sacerdote (Satapatha Brahmana XIII.1.1.1-2).

Como símbolo de poder, o arco corresponde à concepção do poder de Deus, outorgado por Gabriel a Adão para sua proteção, conforme citado acima de fontes turcas.

O arquétipo do rito que implica o domínio é evidentemente solar; o fato de o rei liberar quatro flechas separadas reflete um tiro de arco sobrenatural no qual os Quatro Quadrantes são penetrados e subjugados virtualmente pela descarga de um único dardo.

Isso é, claramente, uma exposição da doutrina do “fio do espírito” (sutratman), segundo a qual o sol, como ponto de fixação, conecta esses mundos a si mesmo por meio dos Quatro Quadrantes, com o fio do espírito, como gemas num fio.

Os chineses empregavam efetivamente uma flecha com uma corda atada na caça de aves, como pode ser visto claramente sobre um bronze gravado da dinastia Chou, agora na Walters Art Gallery, Baltimore.

Um famoso trecho no Mahabharata (I. 123.46 seg. na nova edição de Poona) descreve a prova dos pupilos de Drona no tiro com arco.

Em competição pública, Arjuna realiza várias façanhas mágicas fazendo uso de armas apropriadas para criar e destruir toda sorte de aparências.

A linguagem mesma de todos esses textos expressa sua significação simbólica. A façanha é essencialmente a de Indra, de quem Arjuna é um descendente, enquanto Draupadi, o prêmio, é explicitamente Sri (Fortuna, Tyche, Basileia).

É na noção da penetração de um alvo distante e invisível que culmina o simbolismo do tiro com arco na Mundaka Upanisad (II.2.1-4).

Na Maitri Upanisad as expressões diferem ligeiramente, mas os significados permanecem essencialmente os mesmos: há obstáculos que hão de ser traspassados antes que o alvo possa ser alcançado.

A penetração de obstáculos é uma façanha comum; foi vista acima na prática turca, e no Jataka V.131 Jotipala traspassa um centena de troncos atados como se fossem um (ekabaddham phalakasatam vinijjhitva).

Podem ser citados de outras fontes paralelos notáveis aos textos precedentes.

Da mesma maneira, Dante: “E ali agora (ou seja, à Excelência Eterna como alvo), como ao lugar apontado, o poder dessa corda de arco nos leva, a qual dirige para um alvo ditoso quem quer que a descarregue”.

Para concluir, alude-se à prática do tiro com arco como um “esporte” no Japão no presente dia, fazendo uso de um valioso livro compilado por Mr. William Acker, pupilo americano de Mr. Toshisuke Nasu, cujo próprio mestre, Ichikawa Kojuro Kiyomitsu, “havia visto efetivamente o arco usado na guerra e morreu na casa do arco enquanto tensionava seu arco aos oitenta anos de idade”.

A liberação efetiva da flecha, como a do contemplativo, cujo passo de dhyana a samadhi, da contemplatio ao raptus, tem lugar repentinamente, mas quase inadvertidamente, é espontânea e, por assim dizer, incausada.

Vê-se assim como, numa sociedade tradicional, cada atividade necessária pode ser também a Via, e que numa tal sociedade não há nada profano; uma condição cuja inversa é o que se está vendo nas sociedades seculares, onde não há nada sagrado.