Na Cidade de Deus humana, como modelo político, os poderes sensoriais e discriminativos formam um corpo de guarda pelo qual a Razão Real é conduzida à percepção dos objetos sensíveis, e o coração é a sala de guarda onde recebem suas ordens (
Platão, Timeu 70B;
Filon, Opif. 139, Spec. IV.22).
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Estes poderes – chamados Deuses, Anjos, Eões, Maruts, Rsis, Sopros, Daimones – são o povo (visa, a população) do reino celestial, e se relacionam com seu Capataz (vispati) como a hoste com seu Maior ou os ministros com seu Rei; são uma tropa dos “Próprios do rei” (sva), pelos quais o Rei está rodeado como por uma coroa de glória.
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“Sobre cuja cabeça os Eões são uma coroa de glória que emite raios” (Tratado Gnóstico Copta XII); “por ‘tua glória’ entendo os poderes que formam teu corpo de guarda” (
Filon, Spec, I.45).
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Trata-se de uma relação de lealdade feudal, onde os súditos trazem o tributo e recebem a generosidade: “Tu és nosso e nós somos teus” (Rig Veda Samhita VIII.92.32); “Sejamos nós teus para que tu nos dês o tesouro” (Rig Veda Samhita V.85.8).
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Todos “nossos” poderes não são nossos “próprios”, mas poderes e ministros delegados através dos quais se “exerce” (outro sentido do grego teino) o Poder real; os poderes da alma “são apenas os nomes de Seus atos” (Brhadaranyaka Upanisad 1.4.7, 1.5.21).
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Eles não devem servir ao seu próprio interesse ou ao interesse de outro – cujo resultado será a tirania da maioria e uma cidade dividida contra si mesma – mas servir àquele cujo único interesse é o do corpo político comum.
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Nos numerosos relatos de uma contenda pela precedência entre os poderes da alma, nenhum dos membros ou poderes é indispensável para a vida da cidade corporal, exceto sua Cabeça, o Sopro e o Espírito imanente.
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Assim como um homem traz as oferendas sacrificiais a um altar, a vida justa e natural dos poderes da alma é sua função de trazer tributo à sua cabeça fonte, a mente e verdadeiro Si mesmo que exerce o controle, guardando para si apenas o que resta.
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A tarefa de cada um é cumprir as funções para as quais é dotado por natureza: a tarefa do olho é ver, a do ouvido ouvir, etc., funções necessárias ao bem-estar da comunidade do homem total, mas coordenadas por um poder desinteressado que cuida de todas, para que a comunidade aja unânime como um único homem.
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O conceito é o de uma corporação onde os distintos membros de uma comunidade trabalham juntos, cada um segundo sua própria maneira; tal sociedade vocacional é um organismo, não um agregado de interesses competidores que constituiriam um “equilíbrio de poder” instável.
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A Cidade de Deus humana contém dentro de si o modelo de todas as outras sociedades e de uma verdadeira civilização.
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O homem será um homem “justo” (dikaios) quando cada um de seus membros cumpre sua própria tarefa e está submetido à Razão governante que exerce a providência em benefício de todo o homem.
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Da mesma maneira, a cidade pública será justa quando houver acordo sobre quem governará, sem confusão de funções, e cada ocupação for uma responsabilidade vocacional.
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Não onde não há “classes” ou “castas”, mas onde cada um é um agente responsável em algum campo especial.
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Uma cidade que carece de “justiça” (dikaiosyne) não pode ser chamada de “boa” cidade, como também não pode sê-lo se carece de sabedoria, sobriedade ou coragem; estas quatro são as grandes virtudes cívicas.
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Onde as ocupações são vocações, “se fará mais, e se fará melhor, e com mais facilidade do que de nenhuma outra maneira” (República 370C).
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Se um artesão ou comerciante, tentado pela riqueza ou força, tenta manejar assuntos militares, ou se um soldado tenta ser conselheiro ou guardião para o qual não é dotado, e se estes homens trocam suas ferramentas e honras, ou se um mesmo homem tenta manejar todas estas funções ao mesmo tempo, essa perversão e aprendiz de tudo e mestre de nada será a ruína da cidade; isto é “injustiça” (República 434B).
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A sociedade ideal é considerada como um tipo de oficina cooperativa onde a produção é para o uso e não para o lucro, e onde se provê todas as necessidades humanas, tanto do corpo quanto da alma.
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Para cumprir o mandamento “Sede perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito”, a obra deve ser feita perfeitamente.
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As artes não se dirigem à vantagem de nada exceto a de seu objeto (República 432B), significando que a coisa feita deve ser tão perfeita quanto possível para o propósito para o qual é feita, que é satisfazer uma necessidade humana (República 369B, C).
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O perfeccionismo requerido, embora não motivado “altruisticamente”, “serve efetivamente” à humanidade de uma maneira impossível onde os bens são feitos para a venda em vez do uso, e em quantidade em vez de qualidade.
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À luz da definição de “justiça” por
Platão como ocupação vocacional, compreendem-se melhor as palavras: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (São Mateus 6:33).
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A filosofia indiana do trabalho é idêntica: a ação vem de Brahma; quem na terra não segue a roda que assim gira vive em vão; sem apego às recompensas, faze sempre o que deve ser feito, pois o homem ganha assim o Último.
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“Não há nada que eu precise fazer, nem nada que alcançar que não seja já meu: e, no entanto, eu não me meclo na ação. Portanto, age com vistas ao bem-estar do mundo; pois tudo o que faz o superior, também o farão outros; estabelecido o modelo, o mundo o seguirá. É melhor a própria norma de alguém, por deficiente que seja, do que a de outro, por bem que se faça; é melhor morrer no posto próprio de alguém, pois o de outro está cheio de temor… As vocações são determinadas pela própria natureza de alguém. O homem alcança a perfeição através da devoção ao seu trabalho próprio. Como? Louvando em seu trabalho próprio Àquele de quem procede a expressão de todos os seres e por quem é estendido (tatam, tan) todo este universo. É melhor fazer o trabalho próprio de alguém, mesmo com suas faltas, do que fazer bem o trabalho de outro; quem faz a tarefa que sua natureza própria dispõe que faça não incorre em pecado; alguém não deve nunca abandonar sua vocação herdada.”
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A tradição inspirada rejeita a ambição, a competição e os modelos quantitativos, enquanto a “civilização” moderna se baseia nas noções de progresso social, livre empresa e produção quantitativa.
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A primeira considera as necessidades do homem, que “são poucas aqui embaixo”; a outra considera seus apetites, que não têm limite e cujo número se multiplica artificialmente com a propaganda.
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O manufatureiro para o lucro deve criar um mercado mundial sempre crescente para os excedentes produzidos por aqueles que o dr. Schweitzer chama de “homens sobreocupados”.
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Fundamentalmente, é a obsessão do comércio mundial, que faz das “civilizações” industriais uma “maldição para a humanidade”, e a obsessão do conceito de progresso industrial, “em linha com a empresa da civilização manufatureira”, que provocou e provocará o surgimento das guerras modernas; sobre este mesmo solo miseravelizado cresceram impérios, e por esta mesma cobiça inclemente foram destruídas inúmeras civilizações – pelos espanhóis na América do Sul, pelos japoneses na Coreia e por “as sombras brancas nos Mares do Sul”.
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O dr. Schweitzer escreve que é muito difícil levar a plenitude uma colonização que seja ao mesmo tempo uma verdadeira civilização; a idade da máquina trouxe condições de existência que dificultam a posse de uma civilização.
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“A agricultura e a artesanato são o fundamento da civilização… Sempre que o comércio da madeira é bom, uma fome permanente reina na região de Ogowe… Eles vivem de arroz importado e de alimentos enlatados importados que compram com os rendimentos de seu trabalho… tornando impossível com isso a indústria caseira… Como estão as coisas, o comércio mundial que os alcançou é um fato contra o qual nós e eles somos impotentes.”
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Não se concorda com este quadro de um deus, ou melhor, de um diabolus, ex machina, emparelhado com uma confissão de impotência.
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Se o industrialismo e a prática do comércio são a marca da civilização, como ousar propor ajudar outros a “alcançar uma condição de bem-estar”? O “peso” (da “incivilização”) foi feito por nós e pesa sobre nossos próprios ombros primeiro.
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Dizer que devido à “determinação econômica” somos impotentes para sacudi-lo e nos endireitar seria aceitar a condição de “epígonos” de uma vez por todas e admitir que nossa influência só pode rebaixar os outros ao nosso nível.
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Em uma verdadeira civilização, laborare est orare, mas o industrialismo (“o mamom da injustiça” – grego adikia) e a civilização são incompatíveis.
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Embora se possa ser um bom cristão mesmo em uma fábrica, e talvez ainda melhor na arena do circo, isso não significa que fábricas ou arenas sejam instituições cristãs ou desejáveis.
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A incumbência não é considerar se alguma vez se ganhará uma batalha da religião contra o industrialismo e o comércio mundial; a incumbência é a tarefa, não sua recompensa; a incumbência é certificar-se de que, em qualquer conflito, se está do lado da Justiça.
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O dr. Schweitzer encontra sua melhor desculpa para o governo colonial no fato de que, em alguma medida (por pequena que seja), tais governos protegem seus povos colonizados “do mercador”. Por que não se protegem a si mesmos (os “cobaias” de um livro bem conhecido) do mercador?
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Não seria melhor, em vez de pensar nas consequências inevitáveis do “comércio mundial”, considerar sua causa e empreender a reforma (wideraufbauen é uma palavra de Schweitzer) da própria “civilização”? Ou os incivilizados pretenderão sempre suas “missões civilizadoras”?
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Reformar o que se deformou significa considerar uma “forma” original, o que se tentou fazer com a análise histórica do conceito de civilização baseada em fontes orientais e ocidentais.
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As formas são, por definição, invisíveis aos sentidos. A forma da Cidade de Deus é uma forma “que existe apenas nas palavras, e em nenhuma parte da terra; mas, ao que parece, está guardada no céu para quem quiser contemplá-la e, se a contemplar, para habitá-la”.
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Só pode ser vista pelos verdadeiros filósofos que dirigem suas energias para esses estudos que alimentam a alma em vez do corpo, e que nunca se deixam arrastar pelas congratulações das turbas nem pelo aumento sem medida de sua riqueza, fonte de inúmeros males, mas antes fixam seus olhos sobre sua própria política interior, sem jamais pretender ser políticos na cidade de seu nascimento (República 591E, F).
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Platão está completamente certo ao propor confiar o governo das cidades “ao remanescente incorrupto dos verdadeiros filósofos que hão de suportar agora o estigma da inutilidade”, ou mesmo àqueles que estão agora no poder, “se por alguma inspiração divina tomasse posse deles um genuíno amor da filosofia”.
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Platão está inteiramente certo ao manter que “nenhuma cidade pode ser feliz nunca a menos que seu desenho o tenham traçado esses pintores que fazem uso do modelo divino” (República 499, 500) – a saber, o da Cidade de Deus que está no céu e “dentro de vós”.