====== FACULDADES E MODALIDADES DO HOMEM ====== * As faculdades fundamentais do homem são a inteligência, a vontade e o sentimento — ou, sob outro ângulo, o conhecimento, o temor e o amor; e por analogia: a essência, o rigor e a doçura. * Compreendendo pela inteligência que há acima e dentro de nós o absolutamente Real e o Soberano Bem, não se pode em boa lógica deixar de querer atingir esse Real que é o Bem. * O que se quer atingir a posteriori pela vontade e pela obra deve ser realizado a priori pelo amor e pela virtude, Deo juvante. * O homem possui além das faculdades fundamentais quatro faculdades instrumentais: a Razão, objetiva e distintiva; o desejo, subjetivo e unitivo; a imaginação, ativa e criativa; a memória, passiva e conservadora. * A razão não é a inteligência em si, mas apenas seu instrumento, e apenas à condição de se inspirar na intuição intelectual ou em ideias justas e fatos exatos. * Nada é pior do que o espírito cortado de sua raiz: corruptio optimi pessima. * O Intelecto — aliquid increatum et increabile — domina e enobrece as faculdades fundamentais: por ele a razão existe e é objetiva e total; por ele a vontade é livre e capaz de heroísmo moral; por ele o sentimento é desinteressado e capaz de compaixão e generosidade. * A razão é a prova da centelha divina que habita no fundo do coração humano, sem a qual o próprio homem, feito à imagem de Deus, não teria sentido algum. * Além das faculdades que todos os homens têm em comum, há modalidades que os diferenciam: é preciso distinguir entre virtudes e talentos. * As virtudes são celestes e verticais — intrinsecamente necessárias; os talentos são terrestres e horizontais — simplesmente úteis, ao menos num contexto espiritual. * O homem pode ser santo sem ser genial, e genial sem ser santo; nos homens de natureza profética, os dois valores se combinam necessariamente por força de uma missão criadora. * Os temperamentos e caracteres são outras modalidades: atividade, passividade, leveza, gravidade, indiferenciação; simbolicamente: fogo, água, ar, terra, éter; ou ainda: combatividade discriminativa, quietude contemplativa, santa despreocupação, santa gravidade e sua intenção comum. * Para uns, o ponto de partida da via é a convicção de que o homem é fundamentalmente corrompido e necessita de um Messias para ser salvo; para outros, é ao contrário a própria natureza do homem — inteligência total, vontade livre, caráter compassivo — desde que posta em valor pela Revelação e pela Intelecção. * As duas vias podem se combinar, pois as potencialidades profundas e normativas do homem são em toda parte e sempre as mesmas. * Não há cisão em nossa natureza deiforme. * A virtude está na natureza do homem porque está na lógica das coisas, sendo o homem feito à imagem de Deus. * Onde está a virtude, está a graça; os anjos a conferem à virtude como se verte vinho numa taça de cristal ou ouro. * A deiformidade do homem aparece a priori pela estação vertical do corpo e pelo dom da palavra: a verticalidade obriga à dignidade de pontifex que manifesta; a palavra obriga à verdade e à comunicação do bem. * No fundo, há apenas uma virtude — o amor de Deus e do próximo —, que se diversifica pela complexidade da alma humana e das situações terrestres. * As qualidades morais se aperfeiçoam e se embelezam mutuamente: a paciência só é perfeita com o concurso da confiança, que lhe acrescenta doçura; a confiança exige a rigueur da paciência. * A fervura só é perfeita acompanhada do contentamento, que lhe confere serenidade; o contentamento se funda melhor aliado à fervura. * A humildade se aprofunda pela aliança com a dignidade e a consciência do Motor imóvel; não há sã dignidade sem humildade. * A caridade deve se acompanhar da justiça, pois a bondade não pode primar a verdade; a rigidez da justiça é compensada pela doçura da caridade. * A personalidade de um homem deriva essencialmente de uma ideia ou conjunto de ideias agrupadas em torno de uma ideia central e determinante, das quais derivam comportamentos que as manifestam. * A mania moderna de buscar a própria personalidade é uma perversão pura e simples — atrelar o carro diante dos bois. * A primeira condição de uma personalidade legítima é não desejar tê-la; é preciso querer ser o que é, não o que não é. * As experiências contribuem para dar forma à personalidade, mas não substância, pois esta é função da Verdade e não de acidentes. * A verdadeira personalidade não pode ser senão um reflexo ou prolongamento da Personalidade principial e celeste, a única que verdadeiramente existe. * Os dois grandes escolhos da vida terrestre são a exterioridade e a matéria — mais precisamente a exterioridade desproporcional e a matéria corruptível. * O que se impõe não é rejeitar o exterior admitindo apenas o interior, mas realizar uma relação com o interior que retire à exterioridade sua tirania dispersante e comprimante. * Perceber em todas as coisas os símbolos e arquétipos — integrar o exterior no interior e fazê-lo suporte de interioridade — é ver Deus em toda parte. * A beleza, percebida por uma alma espiritualmente interiorizada, é interiorizante; não se deve confundir uma interioridade orgulhosa ou narcísica com a interioridade santa. * Quanto à matéria, o que se impõe não é negá-la, mas se subtrair à sua tirania sedutora: distinguir nela o que é arquetípico e puro do que é acidental e impuro, e tratá-la com nobreza e sobriedade. * A razão de ser do homem é a consciência que o divino Si tem de Si mesmo, e que deve se reverberar na contingência em virtude da Infinitude do Princípio divino. * A relação do homem com o mundo é condicional e relativo; com o Céu, ao contrário, é incondicional e imprescritível. * A única coisa que conta absolutamente é a consciência do Absoluto; todo o resto está nas mãos de Deus.