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Nakula: Ophiomaches

  • O encantamento de amor da Atharva Veda Samhitâ VI.139.6 — «como a mangosta, tendo despedaçado uma serpente, a reúne de novo, assim tu, erva de virilidade, reúne de novo o que por amor foi despedaçado» — yathâ nakulo vichidya samdadhâti ahim punah — apresenta um enigma, pois não há registro naturalístico de que a mangosta possa reunir serpentes despedaçadas.
    • A mangosta é certamente um ahihan — matadora de Ahi ou da Serpente
    • A chave do enigma está em ler: «como a Mangosta, tendo despedaçado Ahi-Vrtra, o reúne de novo»
  • A palavra hebraica hargal — Levítico 11.22 —, traduzida na Versão Revisada por «escaravelho» e na Septuaginta por ophiomaches — «combate-serpentes» —, designa na verdade um animal que salta repentinamente, correspondente à mangosta ou ao icneumão.
    • Fílon — De opificio mundi I.39 — descreve hargal como «um animal que tem pernas sobre seus pés, com as quais salta do chão e se eleva pelo ar como um gafanhoto» — descrição precisa do comportamento da mangosta diante de uma cobra
    • A derivação de hargal da raiz harag — saltar repentinamente — confirma essa identificação
    • Os hebreus não comiam escaravelhos, mas podiam comer quadrúpedes «que têm pernas sobre seus pés, para saltar com elas sobre a terra» — Levítico 11.21 — e nada no texto indica que as quatro criaturas do versículo 22 devessem ser insetos
    • Na Septuaginta e em Fílon, hargal é traduzido por ophiomaches; na Vulgata, por ophiomachus
  • Segundo Hesíquio, ophiomaches — ofiomacos — é o icneumão, isto é, a mangosta egípcia Herpes ichneumon, animal que «rastreia» — como implica a palavra ichneumon — crocodilos e come seus ovos, e que também mata e come serpentes.
    • A ambiguidade entre icneumão e um tipo de gafanhoto sem asas em Hesíquio explica-se pela existência de uma «mosca-icneumão» — espécie de vespa que deposita ovos em lagartas e assim as mata — chamada «matadora de serpentes» por associação com a tradição de que serpentes são «vermes»
    • Plutarco — Moralia 380F — afirma que os egípcios «veneravam» — etimosan — o icneumão
    • Adolf Erman registra: «entre os animais divinos do Egito está o rato icneumão no qual Atum — o deus Sol — se transformou quando combateu contra Apophis» — Die Religion der Aegypter, Berlim e Leipzig, 1934, p. 46 — sendo Apophis-Seth o «Vrtra Egípcio»
    • Daressy, analisando uma inscrição sobre a estátua do Faraó «Zedher o Salvador» — século IV a.C. —, lê: «Iusâât, o olho de Râ, tornou-se um animal de 46 côvados para combater Âpap em sua fúria» — o texto indica que pode ser invocado em casos de envenenamento por serpente — Annales du Service des Antiquités de l'Égypte, XVIII, 116–117
    • Sethe — «Atum als Ichneumon», Aegyptische Sprache und Altertumskunde, LXIII, 1928, p. 50 — cita e ilustra uma representação escultórica da mangosta egípcia com a inscrição «Atum, o Deus Guardião de Heliópolis», concluindo que o icneumão e o deus Sol partilham um nome comum — 'nd — por serem ambos vencedores na batalha com a serpente
  • A mangosta indiana — nakula — pode ter sido também símbolo e tipo do Indra solar como Ahihan — matador de Ahi ou da Serpente —, embora não haja evidência direta além das implicações da Atharva Veda Samhitâ VI.139.5.
    • A evidência indireta reside no fato de que a mangosta fêmea — nakulî —, igualada com a língua, era tipo do princípio feminino cósmico — Vâc, Sarasvatî, a Terra
    • No Rig Veda Samhitâ I.126.6, Svanaya descreve uma figura feminina que «se oculta como a mangosta fêmea» — kasikâ, Sâyana nakulî — identificada por Sâyana como «filha de Brhaspati»
    • Essa figura é a «língua» — juhu, isto é, Vâc —, esposa de Brhaspati no Rig Veda Samhitâ X.109.5 e a mangosta fêmea do Aitareya Âranyaka III.2.5: «a senhora de toda fala, fechada pelos dois lábios, encerrada pelos dentes» — oshtâ apinaddhâ nakulî dantaih parivrtâ sarvasyai vâca îsânâ
    • Sendo nakulî o tipo de Vâc, seu homólogo masculino — nakula — deve ter sido considerado tipo de Indrâbrhaspatî, de Brhaspati ou de Indra como «matador da serpente»
    • Brhaspati e Indra são preeminentemente sacrificadores; o que é essencial no Sacrifício é primeiro dividir e depois reunir — Ele que é Um torna-se Muitos e, sendo Muitos, é novamente reunido como Um
    • «As juntas de Prajâpati estão disjuntadas» pela emanação de seus filhos — sa visrastaih parvabhih na sasâka samhâtum, Shatapatha Brâhmana I.6.3.36; o propósito final do Sacrifício é reuni-las — sa chandobhir âtmânam samadadhât, Aitareya Âranyaka III.2.6
    • Prajâpati é o Ano — samvatsara —; suas «juntas» — parvâni — são as articulações do dia e da noite, das duas metades do mês e das estações — Shatapatha Brâhmana I.6.3.35–36
    • Ahi-Vrtra, que Indra corta pelas «juntas» — parvâni, Rig Veda Samhitâ IV.19.3, VIII.6.13, VIII.7.23 —, era originalmente «sem juntas» ou «inarticulado» — aparvah, Rig Veda Samhitâ IV.19.3 —, isto é, «sem fim» — anantah
    • Indra divide Magha-Vala — Rig Veda Samhitâ III.34.10, Taittirîya Brâhmana II.6.13.1 —, isto é, Makha — o Sacrifício, Pañcavimsa Brâhmana VII.5.6 — «a quem, enquanto era Um, os Muitos não podiam vencer» — Taittirîya Âranyaka V.1.3
  • Os textos indianos interpretam a matança de Ahi-Vrtra metafisicamente, identificando Vrtra com o «si mesmo elemental», emocional, passível e estético; para os egípcios o conflito do Sol com Apophis-Seth era conflito da luz contra as trevas; para os hebreus a Serpente é o tipo do mal; e para Fílon e Plutarco ela representa explicitamente a «alma» inferior.
    • Para os hebreus, nefesh — anima — «significa para todos os hebreus a natureza física mais baixa, os apetitos, a psique de São Paulo; também se usava para expressar “si mesmo”, mas sempre com esse significado inferior por trás dela» — D. B. Macdonald, The Hebrew Philosophical Genius, Princeton, 1934, p. 139
    • Fílon afirma: «o combate-serpentes — ophiomaches — não é senão uma representação simbólica do controle de si mesmo — egkrateia —, em luta inacabável e em guerra sem trégua contra a incontinência e o prazer… levanta o espírito — gnome —, o combate-serpentes, contra ele, e contende até o fim nesta nobilíssima contenda» — Legum allegoriae I.39, 85–86
    • Plutarco afirma que «Typhon-Seth é essa parte da alma que é passível e titânica — pathetikon kai titanikon —, irracional — alogon — e impulsiva, e, da parte corporal, o que é perecível, mórbido e desordenado… cujo nome significa “restrição” ou “obstrução”» — Moralia 371BC
    • No cristianismo, a «Serpente» é sempre o «Tentador»
  • A tradição indiana pode ter concebido que a mangosta não apenas despedaça a serpente mas também a reúne de novo — à semelhança da doninha do folclore, que revive sua parceira morta por meio de uma erva dadora de vida —, e é com uma «erva de virilidade» que o nakula da Atharva Veda Samhitâ VI.139.6 reúne e «cura» a «serpente».
    • Da mesma forma os sacerdotes «curam» o Ano dividido — Shatapatha Brâhmana I.6.3.35–36
    • Ahi identificado com a «alma» — a Aditi-Vâc «duplamente linguada» de Shatapatha Brâhmana III.2.4.16 — é a «parceira» do Nakula identificado com o Eros divino que «reúne de novo o que por amor está dividido»
    • O sobrenatural não significa o innatural, nem o sobreessencial significa o não essencial: os atos da mangosta devem ser compreendidos não como história natural mas como mito
    • O nakula-ofiomacos é um tipo ou exemplo do sacrificador divino ou humano; a serpente, «um símbolo da cura mágica»
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